Domingo, 19 de mayo de 2013
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01.08.12 - Mundo
Expectativas, Aprendizados e Sentimentos na Cúpula dos Povos
Janeide Lavor
Adital

"Agora, resolvi unir meus sentimentos ao de todos,
se por um lado multiplico minhas dores,
por outro multiplico minhas esperanças”.
(Hélio Pelegrino)

Neste período de 20 anos até à Rio+20, os governos se enganavam e tentavam enganar a sociedade, com o paradigma do Desenvolvimento Sustentável. A Rio+20 escancarou a desfaçatez introduzindo outro paradigma da Economia Verde.

A linguagem agora é muito mais assumidamente capitalista. Em nome do verde, ou da Economia Verde, leia-se do desenvolvimento baseado no discurso no desenvolvimento humano, na prática, apenas no Crescimento Econômico, pode-se tudo.

Porém, segundo João Santiago: "É melhor falar de evangelização, é muito mais fácil e cômodo que efetivamente evangelizar. Não compromete. Fácil também é encontrar alguém querendo mudar os outros e o mundo, mas não é fácil encontrar alguém disposto e querendo mudar a si mesmo e seus hábitos".

Discutir novas formas de produção e consumo para a construção de um desenvolvimento sustentável é ilusório sem a participação e atuação de todos os países, principalmente os mais envolvidos nestas problemáticas como é o caso da Europa e Estados Unidos, que consomem cerca de 80% dos bens produzidos no planeta(1).

Faz-se necessário a participação de todos, com responsabilidades compartilhadas e iniciativas concretas. Não se pode deixar a frente dos bens socioambientais os interesses econômicos dos países ricos.

Esses visam apenas à crise financeira, à decadência do modelo de produção e consumo alimentado pelo capitalismo, e fecham os olhos, tampam os ouvidos para as crises socioambientais, que a cada dia tem se apresentado mais decadente.

Nossa crise é ainda maior, pois ao que se refere à questão social, temos a má distribuição de renda, que nos leva ao quadro de extrema pobreza, refletidos em outros cenários sociais como: a educação, segurança alimentar e nutricional, segurança publica, direito à moradia, dentre outros.

Dificilmente os governos darão uma resposta capaz de amenizar as problemáticas existentes, não estão interessados em salvar o planeta, mas sim os banqueiros e todo o poder econômico que está por trás. Mas, alertamos que estamos em campanha política, e podemos mudar esta situação.

Pois, hoje, a nossa inquietação, enquanto sociedade civil e militantes sociais, é buscarmos mudanças, sair às ruas, nos articularmos, nos mobilizarmos para não permitir tamanho descaso com a população, sobretudo excluída.

O CEBI tem motivado em suas áreas de atuação essas manifestações populares e se fazendo presente em muitas delas, a nossa participação na Cúpula dos Povos é nossa maneira enquanto cebianos/as de nos unirmos aos demais cidadãos, de juntarmos as bandeiras de luta com os movimentos e entidades sociais, para realizarmos o enfrentamento aos descasos socioambientais por parte dos governos.

Precisamos ocupar as ruas, realizando manifestações populares; gritar nossos anseios e questionarmos os governos e suas ações para com o povo, pois a indignação popular é vista em toda parte, é só lembrar das manifestações na Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha, e atualmente no Paraguai com o Golpe de Estado.

E nós? Sociedade civil e Movimentos Sociais que, apesar da presença, da participação e da contribuição dada, ainda estamos muito aquém do que é preciso... A fragmentação, a dificuldade de uma ação coesa e de transbandeirização, que leve a todos/as a lutarem juntos/as pela causa maior. A vida em todas as formas existentes no planeta.

Parece cada vez mais evidente que as mudanças necessárias não virão de governos, sobretudo dos países ricos, mas da sociedade.

A sociedade civil precisa dar uma resposta aos descasos dos governos, buscar seus parceiros e aliados, quem de fato sejam sua voz e os representem de fato e direito, mas para isso precisamos nos expressar nas manifestações populares, ocupar as ruas de nossas cidades e juntos/as mostrarmos toda a nossa insatisfação com os governantes.

Somos capazes de mudar toda essa situação, mas para isso acontecer, precisamos também ocupar esses espaços governamentais, precisamos eleger gente do povo, da militância e luta social e dar condições e apoio para que possa nos representar, sendo nosso/a porta voz, onde não falará para nós nem por nós, mas conosco.

Desta maneira será possível a mudança de conjuntura. Segundo Frei Betto: "mudança de conjuntura exige mudança dos atores sociais". Se para transformarmos o atual cenário for preciso nos apropriarmos dos espaços políticos, que assim seja, mas, conscientemente.

Pior que não contribuir para a mudança de postura frente à degradação do ecossistema é ainda pensar nos investimentos públicos utilizados pelos governos para a realização da conferência oficial a Rio+20, que só retrocedeu, antes ter otimizado este gasto em prol da população. Na mesma reflexão questiona-se a participação e atuação de alguns militantes, a postura frente aos movimentos sociais e as bandeiras de luta, como foi a nossa atuação? Será que entre nós há pessoas que não estão tão preocupadas com nossas lutas?

É preciso rever nossa postura, sobretudo quando utilizamos recursos públicos, pois precisamos dar um retorno às bases. Ter coerência e compromisso com a causa, que nos levou até a Cúpula dos Povos, além de avaliarmos qual a importância de participarmos, faz-se necessário responder o que isso vai fortalecer as lutas populares?

Ser militante social é ter comprometimento e fidelidade à base e à causa que representa. Frei Betto nos diz o que é ser militante de esquerda: "É manter viva a indignação e engajar-se em prol de mudanças que façam cessar a marginalização e a exclusão". E ainda, nos alerta para não sermos "militontos", ele diz: "Evitei ser um ‘militonto’; é ridículo ver ‘militontos’ se gabarem de atuar em diferentes trincheiras –pastorais, sindicais, partidárias– sem demonstrar eficiência em nenhuma delas".

Na Cúpula dos Povos, vi e ouvi o grito das juventudes, ouvi muitas falácias bonitas dignas de aplausos e receberam aplausos; entretanto, vi muitas contradições com o que se diziam e o que efetivamente se fazia. E Frei Betto nos diz: "Entre filosofar e praticar há enorme distância”. Vi e vejo muita "filosofia” desligada de uma ação coerente.

Vi mulheres de seios livres – a montanha que alimenta. Mulheres que defendem a vida, que alimentam a nação de esperança e amor abundante, que estavam ali lutando como somente as mães são capazes, mostrando sua força e garra para defenderem seus filhos/as. Assim, ouvimos e enxergamos as mantedoras da vida. Vimos sua ousadia em frases gritantes e ao mesmo tempo silenciosas, ora gritavam em nossos ouvidos, ora nos silenciavam e emocionavam. Além dos cartazes com frases que nos causavam as mesmas sensações, como por exemplo, um que dizia: "Não ensinem as mulheres como não serem estupradas, ensinem aos homens a não estuprarem!".

Neste contexto vivenciamos a Cúpula dos Povos, sabendo que: "Não há vitória, sem luta". E agradeço ao CEBI, por nos proporcionar este momento tão importante para nossa caminhada ecumênica.

Nota:

(1) Le Monde Diplomatique Brasil, ANO 5/NÚMERO 59, p.3, junho 2012.


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