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01.04.09 - América Latina
Sobre o conceito de ‘lugar teológico’
Francisco de Aquino Júnior
Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität de Münster (Alemanha), professor de teologia na Faculdade Católica de Fortaleza e presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Adital


Um dos pontos mais decisivos e mais polêmicos da Teologia da Libertação (TdL) diz respeito precisamente à compreensão e à determinação do “lugar teológico”. E isso tanto em relação aos críticos da TdL, como revela, por exemplo, a Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre dois livros de Jon Sobrino, quanto entre os próprios teológicos da libertação, como revela o debate atual sobre o método dessa teologia desencadeado pelas críticas de Clodovis Boff. Por trás da polêmica está, entre outras questões, duas compreensões bem distintas do conceito “lugar teológico”, cujos principais representantes são o dominicano espanhol Melchor Cano (1509-1560) (1), por um lado, e os jesuítas espanhóis/salvadorenhos Jon Sobrino (1938-) (2) e Ignacio Ellacuría (1930-1989) (3), por outro lado. Aqui, interessa-nos, simplesmente, explicitar, em forma de tese, essas duas compreensões e sua possível articulação e complementaridade.

Partindo da distinção entre argumentos de razão e argumentos de autoridade e da afirmação do primado da Autoridade sobre a Razão na teologia (4), Melchor Cano, baseando-se nos Tópicos de Aristóteles, compreende os “lugares teológicos” como os lugares de onde se tiram os argumentos teológicos: “Assim como Aristóteles propôs em seus Tópicos uns lugares comuns como sedes e sinais de argumentos, de onde se pudesse extrair toda argumentação para qualquer classe de disputa, de maneira análoga, nós propomos também certos lugares próprios da teologia como domicílios de todos os argumentos teológicos, de onde os teólogos podem sacar todos os seus argumentos ou para provar ou para refutar” (5). Ele estabelece dez “lugares teológicos”: autoridade da Sagrada Escritura, autoridade das Tradições de Cristo e dos Apóstolos, autoridade da Igreja Católica, autoridade dos Concílios, autoridade da Igreja Romana, autoridade dos Santos Padres, autoridade dos Teólogos Escolásticos e dos Canonistas, Razão Natural, autoridade dos Filósofos e autoridade da História Humana (6). Os argumentos que se extraem dos sete primeiros lugares são argumentos “inteiramente próprios” da teologia, enquanto que os que se extraem dos três últimos lugares são argumentos “adscritos e como que mendigados do alheio” (7). Dos dez “lugares teológicos”, diz ele, “os dois primeiros contêm os ‘princípios próprios e legítimos’ da teologia, enquanto que os três últimos contêm os ‘princípios externos e alheios”, pois os cinco intermediários contêm ou a interpretação dos princípios próprios ou essas conclusões que nasceram e saíram deles” (8). Para Melchor Cano, “lugar teológico” significa, portanto, os “domicílios” ou as “fontes” (9) de argumentos da teologia, ou seja, os lugares de onde se pode extrair os mais diversos argumentos teológicos.

Jon Sobrino e Ignacio Ellacuría, por sua vez, considerando o caráter histórico-social do conhecimento teológico bem como sua possível e comprovada ideologização, compreendem o “lugar teológico”, fundamentalmente, como lugar social: o mundo dos pobres e dos oprimidos como lugar privilegiado da revelação e, conseqüentemente, da fé (práxis teologal) e de sua intelecção (teoria teológica). Vivemos em uma sociedade dividida (ricos X pobres) e o lugar social em que nos situamos exerce um papel decisivo na configuração de nossa vida prática e teórica. De modo que, do ponto de vista estritamente teologal e teológico, não dá no mesmo situar-se no lugar social dos ricos ou no lugar social dos pobres (10). Neste contexto, Ellacuría distingue, ao menos metodologicamente, entre “lugar” e “fonte” da teologia. Por “fonte” da teologia, entende o “depósito da fé”, isto é, “aquilo que, de uma ou de outra forma, mantém os conteúdos da fé”. Por “lugar” da teologia, entende o a partir de onde (social) se tem acesso às “fontes” da fé e da teologia e o a partir de onde essas mesmas “fontes” dão mais ou menos de si. Seria, portanto, “um erro”, diz ele, “pensar que bastaria o contato direto [...] com as fontes para estar em condição de ver nelas e de sacar delas o que é mais adequado para o que há de constituir uma autêntica reflexão teológica” (11). Não por acaso a parcialidade de Deus pelos pobres e a centralidade da libertação na revelação e na fé bíblicas foram redescobertas precisamente num continente marcado pela pobreza e pela opressão. Essa distinção entre “lugar” e “fontes” da teologia desempenha um papel fundamental na cristologia de Jon Sobrino. O “lugar” da cristologia, diz ele, é muito importante para que esta “use adequadamente” tanto suas “fontes do passado” (textos) quanto suas “fontes do presente” (presença atual de Cristo na história – fé real em Jesus Cristo). “Para algumas cristologias, o lugar teológico são substancialmente textos [e aqui faz referência explícita a Melchor Cano], embora tenham que ser lidos em um lugar físico e embora se tenham em conta as exigências novas da realidade, os sinais dos tempos num sentido histórico pastoral. Para a cristologia latino-americana, o lugar teológico é, antes de tudo, algo real, uma determinada realidade histórica na qual se crê que Deus e Cristo continuam fazendo-se presente; por isso é lugar teologal antes que lugar teológico e lugar a partir do qual se podem reler mais adequadamente dos textos do passado” (12). E esse lugar não é outro se não “os pobres deste mundo”!

Temos, aqui, portanto, duas concepções bem distintas, não necessariamente contrárias, de “lugar teológico”: “fontes” ou “domicílios” de argumentos teológicos (Melchor Cano) e mundo dos pobres e oprimidos como “lugar social” (Ignacio Ellacuría – Jon Sobrino). Se é verdade que não se pode fazer teologia prescindindo de suas “fontes”, também é verdade que o acesso às fontes da teologia – que não se reduzem aos textos do passado! – se dá sempre em um “lugar social” determinado, mais ou menos adequado. Quando Jon Sobrino, por exemplo, fala dos “pobres deste mundo” como “lugar teológico”, como “lugar da cristologia”, não está substituindo “a fé apostólica” pelos pobres, como acusa a Notificação romana, “de modo pertinente” segundo Clodovis Boff. O que a Notificação romana e Clodovis Boff, seguindo Tomás de Aquino e Melchor Cano, chamam “lugar teológico”, Ignacio Ellacuría e Jon Sobrino chamam “fontes” da teologia – como fazem algumas vezes Mechor Cano e a própria Notificação –, reservando a expressão “lugar teológico” para designar o a partir de onde, o horizonte, o ponto de vista ou a perspectiva social em que o teólogo se situa ao ler e interpretar as próprias “fontes” da teologia.

Notas:

(1) Cf. CANO, Melchor. De locis theologicis. Madrid: BAC, 2006.
(2) Cf. SOBRINO, Jon. Jesucristo liberador. Lectura histórico-teológica de Jesús von Nazaret. San Salvador: UCA, 2000, 51-72.
(3) Cf. ELLACURÍA, Ignacio. “Los pobres, ‘lugar teológico’ en America Latina”, in Escritos Teológicos I. San Salvador: UCA, 2000, 139-161; IDEM. “El auténtico lugar social de la iglesia”, in Escritos Teológicos II. San Salvador: UCA, 439-451.
(4) Cf. CANO, Melchor. Op. cit., 7s.
(5) Ibidem, 9.
(6) Cf. Ibidem, 9s.
(7) Cf. Ibidem, 10.
(8) Ibidem, 692.
(9) Algumas vezes Cano fala do “lugar teológico” como “fonte”. Cf. Ibidem, 217, 505, 662, 682.
(10) Cf. ELLACURÍA, Ignacio. “El auténtico lugar social de la iglesia”. Op. cit., 439ss.
(11) IDEM. “Los pobres, ‘lugar teológico’ en America Latina”. Op. cit., 152.
(12) SOBRINO, Jon. Op. cit., 58.

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