Estudantes secundaristas de Honduras vivenciaram ontem (15), na capital Tegucigalpa, intensa repressão em resposta às manifestações contra a Lei Geral de Educação. Centenas de estudantes, pais e professores foram reprimidos pela Polícia Preventiva e pelos Comandos Cobras, que utilizaram bombas de gás lacrimogêneo, jatos de água e tiros. A repressão deixou dois estudantes desaparecidos, dezenas de feridos e intoxicados. Cerca de 20 líderes foram detidos, porém liberados horas mais tarde.
As manifestações ocorreram em frente ao Instituto Central; na aldeia Germania, sul de Tegucigalpa; na Segunda Avenida de Comayagüela; nas Villas del Sol, leste da capital; na estrada para o departamento de Olancho e na avenida das Forças Armadas.
Um dos pontos onde a situação ficou mais delicada foi na Avenida Panamericana, em Germania, que liga Honduras a El Salvador e Nicarágua. Com o protesto estudantil, automóveis foram impedidos de transitar.
Em entrevista ao blog dickema24, o presidente local da Frente de Ação Revolucionária de Secundaristas em Honduras, Ariel Alejandro Gutiérrez, explica os motivos da ocupação da avenida, ontem pela manhã, e do Instituto Polivalente Germania.
"A ocupação do colégio começou na semana passada. O que ocorre agora é praticamente uma batalha de campo. O único que exigimos é que não nos tirem a educação pública, que querem privatizar. Não queremos dialogar com o ministro da Educação, Alejandro Ventura, senão diretamente com o presidente Porfirio Lobo. Continuamos a ocupação de nosso colégio até que vejamos o resultado. Nós somos de famílias pobres que não têm dinheiro para pagar a educação privada”, enfatiza.
Já na Avenida das Forças Armadas, saída leste de Tegucigalpa, os estudantes entraram em confronto com policiais, que lançaram bombas de gás lacrimogêneo. Segundo a imprensa local, cerca de 20 manifestantes foram detidos e alguns sofreram golpes de cassetete.
Também houve repressão nas proximidades da Casa do Governo. Enquanto Porfirio Lobo se reunia com líderes de seis associações de professores em mesa de diálogo, estudantes que marchavam até o local foram impedidos, por policiais, de se manifestar.
Na ocasião, o presidente do Congresso Nacional, Juan Orlando Hernández, anunciou que o projeto da Lei Geral da Educação seria retirado. Contudo, os estudantes desconfiam que esta seja apenas uma maneira de desarticular o movimento, cujas proporções começam a ser comparadas com os protestos chilenos, assustando o governo de Honduras.
Conjuntura
Há três semanas os estudantes secundaristas se manifestam contra o envio do projeto da Lei Geral de Educação ao Congresso. Nesse período, ocuparam cerca de 150 colégios em todo o país.
A lei enfrenta ferrenha oposição popular porque muda o sistema de educação, estabelecendo o ensino pré-básico e a educação primária, que iria até o nono ano. Com isso, a educação, a partir do décimo ano, não seria mais financiada pelo governo, o que implicaria na sua privatização, uma vez que seria custeada pelas famílias, em institutos privados.
Os maiores de 15 anos também sofreriam duro golpe, pois o projeto estabelece que o governo deixa de financiar a educação a partir dessa idade.
Solidariedade
Em comunicado, a Frente Nacional de Resistência Popular apela a seus integrantes para que se somem às mobilizações estudantis, bem como repudia a "repressão selvagem” contra os secundaristas. "Solidarizamos-nos plenamente com os integrantes da Frente Ação Revolucionária de Secundaristas de Honduras (FARSH), quem realizou ações de pressão pacífica em diferentes pontos de Tegucigalpa, quando foram atingidos pelas forças repressivas do Estado”, declaram.
Também o coordenador geral da Frente, Manuel Zelaya, deixou mensagem encorajadora aos estudantes, recomendando-lhes apostar sempre em formas não violentas de luta. Para ele, as mobilizações estudantis indicam a necessidade de atuação conjunta, pelo que exorta os hondurenhos.
"Compatriotas; apoiemos esta luta para que seja pacífica e que o ‘diálogo com a juventude pela Educação' alcance a unidade, porque atuando todos juntos nas lutas sociais, nas lutas gremiais, nas lutas populares e agora na luta política na Frente Ampla de Resistência podemos recuperar a pátria sequestrada”, conclama.
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