Quinta-Feira, 20 de junho de 2013
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Artigos - Opinião
05.03.12
[ Mundo ]
O silêncio e a arte
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Adital

Meu querido amigo e colega Fernando Ferreira é talvez, dentre as pessoas que conheço, a que mais ama o cinema. Sempre me marcou uma conversa com ele em que, perguntado se é justo chamar o cinema de arte (a sétima arte), respondeu, sem pestanejar: "Não se discute se é arte. Discute-se se é ou não a maior das artes.”

Esta frase voltava uma e outra vez à minha cabeça quando assistia ao filme que ganhou o Oscar este ano: a maravilhosa produção francesa "O Artista”. Ali estava uma obra cinematográfica que se autoconcebia como arte. E isso queria ser, nada mais. A meu ver, com resultado positivo. Como muitos e muitas, acompanhei reverentemente os mais de noventa minutos de silêncio grávido de gestos, expressões faciais, olhares, movimentos, passos de dança.

Em meio à enxurrada de produções digitais, de sofisticações técnicas, de efeitos especiais, destaca-se uma obra de cinema mudo, em preto e branco, onde apenas a corporeidade e o talento dos artistas, a perícia do diretor e a beleza mágica do desenrolar das cenas se encarregavam de transportar o espectador ao mundo sobrenatural da arte, da sétima arte.

Em meio aos barulhentíssimos filmes de violência, de música que mais parece ruído do que outra coisa, de obviedades regadas a trilhas sonoras duvidosas, o silêncio majestoso de "O Artista” se apodera da atenção de todos, velando ao mesmo tempo em que revelando a beleza da imagem em movimento captada pela câmara.

As análises se multiplicaram em todas as direções quando o filme começou a subir no céu das apostas de Hollywood, após já haver arrebatado outros prêmios em latitudes diferentes. Muitos interpretaram o favoritismo de "O Artista” como sendo um marco do fim do cinema tal como entendido até hoje. Disseram que a Academia americana de cinema, ao conceder a estatueta à obra de Michel Hazanavicius, quer marcar a crise da indústria cinematográfica com a entrada definitiva da era digital.

"O Artista” seria então uma despedida. Despedida de um modo de fazer cinema, e de entender e apreciar a cinematografia não mais compatível com os tempos de hoje. Modestamente, minha interpretação vai em outra direção. Creio que em meio ao burburinho caótico em que correm o risco de transformar-se todas as formas de expressão culturais, linguísticas, artísticas, o filme traz para a frente da cena a eterna e universal questão da linguagem.

No silêncio de sua luminosa e talentosa realização, "O Artista” apresenta algo de extrema profundidade: a universalidade do silêncio como linguagem. Deslizando pela tela em surpreendente harmonia, os corpos e os rostos de Jean Dujardin e Berenice Bejo vão comunicando sem oprimir, transmitindo sem violar, abrindo horizontes infinitos que independem de língua, idioma, código semântico.

Parece-me que em vez de ser considerado o fim do cinema e o início oficial da "digitalidade” sem fronteiras, o filme vencedor de todos os prêmios neste ano da graça de 2012 é, na verdade, a testemunha da vitória da imagem. Ali onde não são necessárias milhares de palavras, a força simbólica e imagética encontra espaço adequado para expandir-se e fazer-se significado no silêncio das mentes atentas e dos corações seduzidos.

Imaginação à solta, o público é tratado como adulto e capaz de ver e interpretar, sem ser atropelado por excesso de conteúdos explicitados até a exaustão. Exigidos em toda a sua capacidade interpretativa por outro lado, os artistas devem explorar muito mais seus recursos corporais, faciais, gestuais. Não basta apenas ter um rosto bonito, um corpo sensual e um talento medíocre para interpretar à altura um papel dramático exigente. Nem é suficiente ser "engolido” por um público igualmente medíocre e pouco exigente, que metaboliza sem discernimento o que lhe é servido.

"O Artista” mostra o que caracteriza a verdadeira obra de arte: a criatividade, a originalidade, a audácia de inovar. Mas, ao mesmo tempo, sem concessões à novidade barata e rasa que tem a efemeridade de um suspiro curto. Por tudo isso, e um tanto surpreendentemente, conquistou merecido reconhecimento por parte de todas as instâncias.

Parece claro que o ser humano está farto de mediocridades óbvias. O silêncio e a arte são mais necessários que o ar que se respira e a água que se bebe. Louvado seja o filme de Michel Hazanavicius, que permite a celebração desta verdade.

[Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].

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