Vozes de especialistas e entendidos em ecologia alertam-nos para a barbaridade que se está a cometer com o novo Código Florestal. Os discursos políticos perdem cada vez mais credibilidade por dizer algo que significa na realidade o oposto. Impera o engodo ideológico que ilude, com frequência, a inteligência média das pessoas.
Justificou-se alterar o Código Florestal para favorecer os pequenos agricultores. Causa simpática num mundo em que os grandes os oprimem. No entanto, observam analistas sociais e ecologistas que ele responde aos interesses do agronegócio de exportação em detrimento da pequena propriedade rural. Enquanto 40% da produção de grãos exportados termina nas pocilgas e nos cochos do gado confinado dos países centrais, o pequeno agricultor prejudicado nutre 70% da mesa de alimentos do brasileiro.
Com o novo Código ameaça-se reduzir as áreas de preservação permanente, com terríveis consequências no desequilíbrio entre secas e chuvas, ao intensificar e deslocar o ritmo de ambas. Quando se espera chuva, prolonga-se a seca; quando a seca protege a plantação, abate-se sobre ela chuva de pedras, com a destruição da mesma colheita que o Código pretende defender. Além disso, os mananciais de águas correm risco de serem reduzidos e envenenados pela quantidade industrial de agrotóxicos usados. Terra e água se contaminam. Estamos bem! Os dois bens maiores da natureza entram em agonia, imaginando que viveremos da tecnologia eletrônica. A inteligência humana manifesta-se genial na invenção de aparelhos e cega na proteção da natureza. Haja contradição!
O agronegócio, na crítica dos ecologistas, mostra-se míope. Aposta no lucro a curto prazo, sem pensar nas terríveis previsões futuras que o afetarão igualmente. A cultura pós-moderna sofre de doença endêmica da perda da consciência histórica. Esquece as lições do passado e não olha para o futuro. Goza do presente à exaustão, remetendo para mais tarde problemas gravíssimos. Como se tem visto a tecnologia crescer a passos gigantescos, imagina-se que com ela se resolverão os previsíveis ameaçadores problemas. Esquece-se que a natureza não reage ao toque da tecla do computador. Ela tem uma programação de 13,7 bilhões de anos e não se altera como a mudança do número do celular.
Com os atuais políticos dificilmente contamos. Eles votaram o Código. A solução não vem de quem, por razões suspeitas, não atina ver a realidade. Quando os três Poderes não funcionam na linha desejada, o olhar se volta para a sociedade civil com as instituições nelas existentes. Essas têm força, pela via do referendo popular, como a Ficha Limpa, de impor-se sobre o Legislativo venal.
Os latinos, diante de uma decisão, perguntavam-se ironicamente: "Cui prodest?". Nada acontece inocentemente. Alguém está a aproveitar-se das mudanças impostas ao Código. A resposta aponta na direção dos especuladores rurais do agronegócio, responde o ambientalista Francisco Milanez. Fica aí a suspeita para nossa reflexão.
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