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Domingo, 19 de maio de 2013
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21.06.12 - Brasil
A mão invisível do poder
Lúcio Flávio Pinto
Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)
Adital


Foto: pedrox

Manhã de sábado, dia 2. Um amigo liga para me parabenizar. A edição deste jornal saíra sem uma referência aos Maioranas. Assim seria melhor. Eu que os deixasse de lado.

Sem conseguir controlar por completo o impulso de indignação que o assunto me provoca, respondi que se eu o atendesse estaria também fazendo o jogo dos Maioranas e de outros poderosos. Eles me levaram às barras dos tribunais não só para me impor uma condenação, com todas as suas consequências.

A sentença é o algo a mais. Ainda que ela não saia ou não atenda os seus propósitos, até o trânsito em julgado das ações, por longos anos, eu estarei preso ao emaranhado das várias instruções processuais. Não terei o tempo necessário para fazer boas edições do jornal. Em alguns momentos, nem mesmo para garantir o pão de todos os dias, cuidar da saúde, usufruir das amizades, viver a vida.

Meus leitores sentem quando os processos estão efervescendo. A pauta de matérias fica anêmica, os erros se repetem, os temas são tratados sem a amplitude e a profundidade que têm. E não sabem de toda reza porque, atento às circunstâncias, evito dar aos meus algozes importância desmedida, recorrência desgastante.

Entendo a preocupação e o sentimento do amigo que telefonou. Estava sinceramente alegre por supor que, não falando dos Maioranas (e, na verdade, falei), estaria me livrando da coroa de espinhos e aliviando meus leitores. Eu devia ter sido mais compreensivo na conversa. O tom de certa impaciência e irritação sugere que não tenho mais isenção de ânimo e o humor de sempre, mesmo quando estou em situação complicada,

Não é assim, porém. O desafio é que é difícil de resolver. Há muitos leitores enfastiados de "Maioranazites” neste jornal. Sua reação não está desprovida de razões e bom senso. Antes de se deixar levar pelo enfado e o primeiro movimento instintivo, deviam pensar melhor: será mesmo que me excedo? Virou uma monomania? Uma obsessão?

É preciso submeter o que escrevo sobre meus principais perseguidores a um teste de consistência, perguntando ao texto: ele contém fatos? Há fatos novos no conjunto de informações? Esses fatos novos são relevantes? Tem interesse público? Trata-se de reação pessoal, personalíssima, ou expressa um problema maior, como censura, repressão à liberdade de pensamento, parcialidade da justiça, manipulação da opinião pública, sonegação de fatos do interesse da sociedade, manobra comercial, acordo espúrio com integrantes do poder público, transformação de interesse particular em coisa pública e etc.?

Se o que escrevo tem fundamento em algumas dessas bitolas temáticas, então é meu direito – e mais do que isso, meu dever – continuar a acompanhar o que os Maioranas fazem na esfera da vida pública, na arena dos assuntos de repercussão coletiva. Por que essa perseguição através da justiça começou, em 1992, desdobrando-se em nada menos do que 19 ações judiciais?

Porque eu revelei a disputa pelo poder dentro da empresa entre os irmãos Romulo Maiorana Júnior e Rosângela Maiorana Kzan. Irritada pelo meu primeiro texto, ela tentou intervir no que eu ia escrever, através do marido, o advogado Calilo Kzan Neto, que era meu amigo e ocupava o mesmo prédio onde eu trabalhava.

Se eu tivesse feito sua vontade, nos teríamos tornado aliados e eu iria participar da guerra intestina do grupo Liberal. Ofereci-lhe espaço para sua versão, mas continuei a ser o único dono do texto final e a responder pelo que dele constava. Reproduzi o que Rosângela mandou dizer pelo marido, mas reafirmei as informações do primeiro artigo. Simplesmente porque tudo era verdadeiro. Por isso sofri cinco processos sucessivos.

Mas continuo a adotar o mesmo tipo de procedimento que já era minha característica desde os primeiros dias como jornalista profissional, 46 anos atrás. O prêmio Vladimir Herzog me foi concedido agora não por uma reportagem, mas pelo conjunto da obra. Ela pode desagradar a muitos, e, sobretudo, a uns tantos poderosos, mas tem coerência e solidez. Logo, devo mantê-la assim até o fim dos meus dias. É a minha marca e, se chegar a tal, meu legado.

Os leitores que me escrevem ou telefonam incomodados pela frequência dos Maioranas nas páginas do JP, se pretendem contribuir para a continuidade e a melhoria do jornal, devem formular suas questões depois de analisar cada matéria pelos parâmetros indicados ou por mais aqueles que considerarem válidos. O simples enfado, a reação apenas ditada pelo incômodo, pode acabar servindo aos propósitos dos meus perseguidores.

Sei que a esmagadora maioria daqueles que se manifestam a respeito é movida pelos bons propósitos. Não alguns lobos em pele de cordeiro. Falando como a querer o meu bem, dizendo que buscam me desviar do caminho viciado, que me conduzirá à exaustão e ao isolamento, na verdade servem ao objetivo de me censurar. Esse é o móvel de todas essas ações judiciais (e o objetivo de vários integrantes da magistratura paraense, aliados da causa do grileiro Cecílio do Rego Almeida e dos Maioranas, alguns deles os que maior poder detêm na nobre instituição estadual).

Preciso ter senso de equilíbrio, objetividade e responsabilidade sempre que escrever sobre os donos do grupo Liberal (como, de resto, sobre todo e qualquer assunto incluído neste jornal). Preciso me colocar na posição contrária, a do leitor, que recebe minhas matérias.

Uma vez imbuído desses princípios, não posso excluir do meu escopo que a atitude de resistência mais importante deste jornal é a de não aceitar as medidas de força e coação contra o que dele faz parte, contra o que nele incomoda os donos do poder.

Os Maioranas têm uma parte considerável desse condomínio. Seus veículos de comunicação representam formidável instrumento de pressão com o qual seduzem uns, amedrontam outros, iludem muitos e lhes possibilitam atirar pedras e esconder a mão, impedindo que o distinto público veja seu imenso telhado de vidro.

Enquanto puder, o Jornal Pessoal será uma barreira a esse tipo de manobra. Por aqui, ela não passará.

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