Já voltaram para casa as quase cem mil pessoas que
ocuparam o Rio de Janeiro, durante a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento
Sustentável e a reunião paralela da sociedade civil, intitulada de "Cúpula dos
Povos”. Quem julgou essa conferência da ONU pelo documento final ali produzido
pode pensar que as expectativas foram frustradas e que não houve avanços. Mesmo
várias das propostas e conquistas da Rio 92 (Agenda 21 e Metas do Milênio)
ainda não foram completamente postas em prática. Entretanto, eventos desse
porte cumprem um papel e deixam uma herança para além de seus documentos
finais. Durante mais de uma semana, a população do Rio conviveu pacificamente
com milhares de índios de todas as regiões do Brasil, com suas indumentárias e suas
justas reivindicações. Testemunhou que as questões sociais, políticas e
ambientais mobilizam a geração dos maiores de 40, mas interessa também e até
principalmente a juventude. A Cúpula dos Povos significou um encontro multicolorido
de jovens do mundo inteiro. E a juventude protagonizou os protestos contra o
conceito de economia verde, grande novidade da Rio 92+20. Denunciou o
capitalismo como sistema essencialmente predador. Afirmou que as guerras e a
política armamentista são graves obstáculos para a sustentabilidade e deixou
claro que a energia nuclear, mesmo a que tem como objetivo fins pacíficos, é
sempre poluidora e perigosa. Muitas das pessoas presentes eram crentes de
diversas religiões e tradições espirituais. Ali houve uma vigília
inter-religiosa pela paz e pela ecologia. Havia uma grande tenda, própria para
o diálogo entre as religiões a serviço da paz, da justiça e da defesa da
natureza, fruto constante do amor divino que a cada instante cria e recria a
vida.
Durante séculos, a tradição cristã ocidental
privilegiou um olhar sobre a atuação divina na história e não valorizou tanto
essa mesma presença amorosa de Deus na sua criação. Hoje, recobra atualidade
uma palavra que, no século IV, Santo Agostinho afirmou: "O que não é assumido
não pode ser redimido”. Por isso, hoje, a maioria das Igrejas tomam consciência
de que esses assuntos da paz, da justiça eco-social e da defesa da natureza são
temas teológicos e nos desafiam como prioridades para a missão dos cristãos no
mundo. Outras tradições espirituais, como as religiões orientais e os cultos
indígenas e afrodescendentes sempre consideraram o cuidado com a natureza como
elemento central de sua espiritualidade. Isso faz com que, crentes e não
crentes possamos nos juntar em um fórum permanente de diálogo e trabalhos para
reconstruir uma cultura amorosa e de comunhão entre a humanidade e o universo. Podemos
reler o salmo 19 e cantar: "os céus narram a glória de Deus, (isso é, os sinais
visíveis de sua presença) e o universo inteiro é obra permanente de sua mão”.