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05.07.12 - Mundo
Depois da Rio 92+20
Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
Adital
Já voltaram para casa as quase cem mil pessoas que ocuparam o Rio de Janeiro, durante a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável e a reunião paralela da sociedade civil, intitulada de "Cúpula dos Povos”. Quem julgou essa conferência da ONU pelo documento final ali produzido pode pensar que as expectativas foram frustradas e que não houve avanços. Mesmo várias das propostas e conquistas da Rio 92 (Agenda 21 e Metas do Milênio) ainda não foram completamente postas em prática. Entretanto, eventos desse porte cumprem um papel e deixam uma herança para além de seus documentos finais. Durante mais de uma semana, a população do Rio conviveu pacificamente com milhares de índios de todas as regiões do Brasil, com suas indumentárias e suas justas reivindicações. Testemunhou que as questões sociais, políticas e ambientais mobilizam a geração dos maiores de 40, mas interessa também e até principalmente a juventude. A Cúpula dos Povos significou um encontro multicolorido de jovens do mundo inteiro. E a juventude protagonizou os protestos contra o conceito de economia verde, grande novidade da Rio 92+20. Denunciou o capitalismo como sistema essencialmente predador. Afirmou que as guerras e a política armamentista são graves obstáculos para a sustentabilidade e deixou claro que a energia nuclear, mesmo a que tem como objetivo fins pacíficos, é sempre poluidora e perigosa. Muitas das pessoas presentes eram crentes de diversas religiões e tradições espirituais. Ali houve uma vigília inter-religiosa pela paz e pela ecologia. Havia uma grande tenda, própria para o diálogo entre as religiões a serviço da paz, da justiça e da defesa da natureza, fruto constante do amor divino que a cada instante cria e recria a vida.

Durante séculos, a tradição cristã ocidental privilegiou um olhar sobre a atuação divina na história e não valorizou tanto essa mesma presença amorosa de Deus na sua criação. Hoje, recobra atualidade uma palavra que, no século IV, Santo Agostinho afirmou: "O que não é assumido não pode ser redimido”. Por isso, hoje, a maioria das Igrejas tomam consciência de que esses assuntos da paz, da justiça eco-social e da defesa da natureza são temas teológicos e nos desafiam como prioridades para a missão dos cristãos no mundo. Outras tradições espirituais, como as religiões orientais e os cultos indígenas e afrodescendentes sempre consideraram o cuidado com a natureza como elemento central de sua espiritualidade. Isso faz com que, crentes e não crentes possamos nos juntar em um fórum permanente de diálogo e trabalhos para reconstruir uma cultura amorosa e de comunhão entre a humanidade e o universo. Podemos reler o salmo 19 e cantar: "os céus narram a glória de Deus, (isso é, os sinais visíveis de sua presença) e o universo inteiro é obra permanente de sua mão”.


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