Tradução: ADITAL
O governo ameaça declarar estado de sítio e suspender as garantias individuais, como nos tempos de Micheletti
Na madrugada do dia 27 de julho de 2012, foi assassinado Israel García Pérez, 37 anos, membro do Movimento Camponês Recuperação do Aguán. Um grupo de pessoas, supostamente guardas privados do latifundiário e produtor de dendê Miguel Facussé Barjum, havia atacado com armas de grosso calibre às famílias camponesas que, no passado dia 20 de julho, recuperaram as terras da fazenda Los Laureles, nos arredores da cidade de Tocoa, de propriedade do próprio Facussé.
Com esse novo crime, eleva-se para 52 o número de camponeses organizados assassinados em menos de três anos, no marco do grave conflito agrário que atinge a região do Bajo Aguán.
Diante dessa situação, o governo hondurenho ameaçou declarar o Aguán como "zona de segurança nacional”, o que implicaria em uma maior militarização, a suspensão das garantias individuais e um estado de sítio regional. Essas medidas foram totalmente rechaçadas pelas organizações camponesas, pois fariam parte de uma campanha midiática para desprestigiar o movimento camponês e legitimar a criminalização do protesto social e a luta pela terra.
Sobre essa situação, a LINyM conversou com Vitalino Álvarez, porta voz do Movimento Unificado Camponês do Aguán (Muca).
- Como aconteceu o assassinato de Israel García?
- O pessoal do Movimento Camponês Recuperação do Aguán nos chamou às 9 da noite de ontem (26/7) para avisar-nos que estavam atacando a balaços e que a polícia não quis chegar à zona para auxiliá-los. O pessoal se reagrupou e tentou proteger-se; porém, aparentemente, o companheiro ficou sozinho e foi cercado pelos atacantes. Na manhã seguinte, o encontraram assassinado com vários balaços e sem uma orelha. Os membros do Movimento responsabilizam aos guardas privados de Facussé.
- Uma morte que coloca mais lenha na figueira...
- Estamos muito preocupados. Continuam assassinando-nos e agora o governo está pretendendo criminalizar nossa luta e vincular o movimento camponês ao crime organizado, ao narcotráfico... Já estão se preparando para declarar o Bajo Aguán como zona de segurança nacional, impondo toques de recolher e mais militarização.
- Você acredita que dessa maneira se solucionaria o problema que atinge a região?
- Não é com a militarização nem com toques de recolher que solucionarão o conflito agrário. Já ficou demonstrado com a Operação Xatruch II que dessa forma não se detém a violência; ao contrário, aumentaram as violações aos direitos humanos e a repressão contra as famílias camponesas. Já estamos vivendo um clima de guerra, onde nós somos os criminalizados.
- Porfirio Lobo e o Ministro da Defesa disseram que há setores camponeses armados que perseguem outros objetivos; que querem semear o caos...
- Por três vezes, o governo militarizou a zona e realizou operações para buscar armas e nunca encontrou nada. Os únicos que andam fortemente armados são os guardas privados dos latifundiários; porém, ninguém os incomoda.
- Qual a proposta das organizações camponesas?
- Várias vezes dissemos que o conflito é o resultado direto da aprovação, em 1992, da Lei de Modernização e Desenvolvimento do Setor Agrícola e que se deve buscar uma solução para isso. Para tal, se necessita vontade política. Além disso, exigimos a aprovação da lei de Transformação Agrária Integral, cujo projeto já está nas mãos dos deputados.
Não é criminalizando nossa luta que encontraremos uma solução; pelo contrário, mais violência se gera e se aprofunda. Por isso, estamos propondo a instalação imediata de uma Mesa de Diálogo integrada pelo Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário, conjuntamente com os movimentos camponeses.
- Há muita preocupação entre as famílias camponesas?
- A campanha de desprestígio não parou e a impunidade também continua. Tudo isso abre a porta para mais violência. Chamamos a solidariedade internacional e as organizações de direitos humanos nacionais e internacionais para que continuem monitorando a situação, para que fiquem atentas, porque nós estamos em alerta máxima.
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