"Agora, resolvi unir meus sentimentos ao
de todos,
se por um lado multiplico minhas dores,
por outro multiplico minhas esperanças”.
(Hélio Pelegrino)
Neste período de 20 anos até à Rio+20, os governos se enganavam e tentavam enganar a sociedade, com o paradigma do Desenvolvimento Sustentável. A Rio+20 escancarou a desfaçatez introduzindo outro paradigma da Economia Verde.
A linguagem agora é muito mais assumidamente capitalista. Em nome do verde, ou da Economia Verde, leia-se do desenvolvimento baseado no discurso no desenvolvimento humano, na prática, apenas no Crescimento Econômico, pode-se tudo.
Porém, segundo João Santiago: "É melhor falar de evangelização, é muito mais fácil e cômodo que efetivamente evangelizar. Não compromete. Fácil também é encontrar alguém querendo mudar os outros e o mundo, mas não é fácil encontrar alguém disposto e querendo mudar a si mesmo e seus hábitos".
Discutir novas formas de produção e consumo para a construção de um desenvolvimento sustentável é ilusório sem a participação e atuação de todos os países, principalmente os mais envolvidos nestas problemáticas como é o caso da Europa e Estados Unidos, que consomem cerca de 80% dos bens produzidos no planeta(1).
Faz-se necessário a participação de todos, com responsabilidades compartilhadas e iniciativas concretas. Não se pode deixar a frente dos bens socioambientais os interesses econômicos dos países ricos.
Esses visam apenas à crise financeira, à decadência do modelo de produção e consumo alimentado pelo capitalismo, e fecham os olhos, tampam os ouvidos para as crises socioambientais, que a cada dia tem se apresentado mais decadente.
Nossa crise é ainda maior, pois ao que se refere à questão social, temos a má distribuição de renda, que nos leva ao quadro de extrema pobreza, refletidos em outros cenários sociais como: a educação, segurança alimentar e nutricional, segurança publica, direito à moradia, dentre outros.
Dificilmente os governos darão uma resposta capaz de amenizar as problemáticas existentes, não estão interessados em salvar o planeta, mas sim os banqueiros e todo o poder econômico que está por trás. Mas, alertamos que estamos em campanha política, e podemos mudar esta situação.
Pois, hoje, a nossa inquietação, enquanto sociedade civil e militantes sociais, é buscarmos mudanças, sair às ruas, nos articularmos, nos mobilizarmos para não permitir tamanho descaso com a população, sobretudo excluída.
O CEBI tem motivado em suas áreas de atuação essas manifestações populares e se fazendo presente em muitas delas, a nossa participação na Cúpula dos Povos é nossa maneira enquanto cebianos/as de nos unirmos aos demais cidadãos, de juntarmos as bandeiras de luta com os movimentos e entidades sociais, para realizarmos o enfrentamento aos descasos socioambientais por parte dos governos.
Precisamos ocupar as ruas, realizando manifestações populares; gritar nossos anseios e questionarmos os governos e suas ações para com o povo, pois a indignação popular é vista em toda parte, é só lembrar das manifestações na Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha, e atualmente no Paraguai com o Golpe de Estado.
E nós? Sociedade civil e Movimentos Sociais que, apesar da presença, da participação e da contribuição dada, ainda estamos muito aquém do que é preciso... A fragmentação, a dificuldade de uma ação coesa e de transbandeirização, que leve a todos/as a lutarem juntos/as pela causa maior. A vida em todas as formas existentes no planeta.
Parece cada vez mais evidente que as mudanças necessárias não virão de governos, sobretudo dos países ricos, mas da sociedade.
A sociedade civil precisa dar uma resposta aos descasos dos governos, buscar seus parceiros e aliados, quem de fato sejam sua voz e os representem de fato e direito, mas para isso precisamos nos expressar nas manifestações populares, ocupar as ruas de nossas cidades e juntos/as mostrarmos toda a nossa insatisfação com os governantes.
Somos capazes de mudar toda essa situação, mas para isso acontecer, precisamos também ocupar esses espaços governamentais, precisamos eleger gente do povo, da militância e luta social e dar condições e apoio para que possa nos representar, sendo nosso/a porta voz, onde não falará para nós nem por nós, mas conosco.
Desta maneira será possível a mudança de conjuntura. Segundo Frei Betto: "mudança de conjuntura exige mudança dos atores sociais". Se para transformarmos o atual cenário for preciso nos apropriarmos dos espaços políticos, que assim seja, mas, conscientemente.
Pior que não contribuir para a mudança de postura frente à degradação do ecossistema é ainda pensar nos investimentos públicos utilizados pelos governos para a realização da conferência oficial a Rio+20, que só retrocedeu, antes ter otimizado este gasto em prol da população. Na mesma reflexão questiona-se a participação e atuação de alguns militantes, a postura frente aos movimentos sociais e as bandeiras de luta, como foi a nossa atuação? Será que entre nós há pessoas que não estão tão preocupadas com nossas lutas?
É preciso rever nossa postura, sobretudo quando utilizamos recursos públicos, pois precisamos dar um retorno às bases. Ter coerência e compromisso com a causa, que nos levou até a Cúpula dos Povos, além de avaliarmos qual a importância de participarmos, faz-se necessário responder o que isso vai fortalecer as lutas populares?
Ser militante social é ter comprometimento e fidelidade à base e à causa que representa. Frei Betto nos diz o que é ser militante de esquerda: "É manter viva a indignação e engajar-se em prol de mudanças que façam cessar a marginalização e a exclusão". E ainda, nos alerta para não sermos "militontos", ele diz: "Evitei ser um ‘militonto’; é ridículo ver ‘militontos’ se gabarem de atuar em diferentes trincheiras –pastorais, sindicais, partidárias– sem demonstrar eficiência em nenhuma delas".
Na Cúpula dos Povos, vi e ouvi o grito das juventudes, ouvi muitas falácias bonitas dignas de aplausos e receberam aplausos; entretanto, vi muitas contradições com o que se diziam e o que efetivamente se fazia. E Frei Betto nos diz: "Entre filosofar e praticar há enorme distância”. Vi e vejo muita "filosofia” desligada de uma ação coerente.
Vi mulheres de seios livres – a montanha que alimenta. Mulheres que defendem a vida, que alimentam a nação de esperança e amor abundante, que estavam ali lutando como somente as mães são capazes, mostrando sua força e garra para defenderem seus filhos/as. Assim, ouvimos e enxergamos as mantedoras da vida. Vimos sua ousadia em frases gritantes e ao mesmo tempo silenciosas, ora gritavam em nossos ouvidos, ora nos silenciavam e emocionavam. Além dos cartazes com frases que nos causavam as mesmas sensações, como por exemplo, um que dizia: "Não ensinem as mulheres como não serem estupradas, ensinem aos homens a não estuprarem!".
Neste contexto vivenciamos a Cúpula dos Povos, sabendo que: "Não há vitória, sem luta". E agradeço ao CEBI, por nos proporcionar este momento tão importante para nossa caminhada ecumênica.
Nota:
(1) Le Monde Diplomatique Brasil, ANO 5/NÚMERO 59, p.3, junho 2012.
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