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02.08.12 - Mundo
Por que tudo não pode ser mais?
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
Adital

Foi no último dia 31 de julho, festa de Santo Inácio, enquanto participava da missa na igreja do colégio em Botafogo. Lotada de gente, a missa era bela e cheia de espírito e alegria. Eu recordava os tempos em que meus filhos eram alunos do colégio, em que eu ia às reuniões de pais e participava de muitas atividades pastorais.

Agora, via ali alunas minhas de teologia que ocupam o lugar dos antigos professores de religião. Presentes com seus filhos, vibrando na mística comum que o colégio sabe criar, eram membros plenos daquela família nascida do sonho do gentil homem de Loyola, que um dia se tornou o peregrino da vontade de Deus.

Ao final da missa, Pe. Carlos Palácio, provincial do Brasil, apresentou a nova logomarca da Companhia em nosso país. O clipe de apresentação abria justamente com essa frase: Por que tudo não pode ser mais? Com a frase dando-me voltas na cabeça e coração, voltei para casa. Assim dormi, assim acordei no dia seguinte. Assim escrevo, por ela motivada.

A realidade não é tão somente aquilo que é, mas também e talvez, sobretudo, aquilo que devia ser. Toda a antropologia cristã trabalha com esse princípio que já foi enunciado nos albores do cristianismo pelo grande Paulo de Tarso. "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.” (Rom 12,2)

O ser humano é o único que não se conforma com a realidade, deseja mais: que ela seja melhor, mais justa, mais reconciliada, mais perfeita. Nesse sentido, trabalharam e trabalham todas as espiritualidades, as místicas diversas, laicas ou afiliadas a alguma instituição. Feito para a infinitude, apesar de sentir-se e ser finito, o ser humano é o único de toda a criação que não resolve sua existência por aquilo que a realidade lhe oferece: comer, dormir, procriar, morrer.

Quebrando constantemente as fronteiras dos instintos e da natureza, a humanidade sempre buscou - para além do que lhe era dado - o que desejava e podia alcançar. E transformou a vida em um incessante combate que tem como mola propulsora os desejos, os sonhos, os ideais, as utopias. Os projetos intra-históricos adquiriram transcendência inesperada e inexplicável. Os elementos da natureza foram para os laboratórios e, incessantemente observados e experimentados pelos cientistas, tornaram-se cura de doenças, avanços tecnológicos e produtos novos e úteis ao progresso da vida em todas as suas manifestações.

Os desvios, as manipulações, os erros também aconteceram. Mas o fato mesmo de sua existência denotava o esforço do homem e da mulher, seres finitos, lutando incessantemente para ser mais, para culminar o sonho do Criador para si mesmos e para a realidade em geral.

Talvez a frase da logomarca da Companhia de Jesus tenha me feito pensar tanto e tão profundamente, que hoje percebo um movimento inverso. O ser foi substituído pelo ter. Portanto, o ser mais pelo ter mais. E desde que o mundo é mundo sabemos que o ter mais muitas vezes vai na direta proporção do ser menos.

As pessoas parecem se contentar com menos, buscar menos. Compromissos a longo prazo são muito difíceis. Ideais que alimentam toda uma vida são impossíveis. Então, contentemo-nos com o que encontramos nas esquinas, provisório, atrofiado e menor. Isso basta para satisfazer-nos.

Não cansemos nossas cabeças esforçando-nos para conhecer mais e mais profundamente. Limitemo-nos à estreita área de nossa especialidade e vejamos o mundo apenas por esse prisma. Para que cansarmo-nos tentando saber mais para ser mais e servir mais, quando saber apenas isso é o que nos dá de comer e o que garante nossa subsistência?

E assim, foram perdendo seu lugar de honra na agenda humana os bons livros, a boa música, a boa educação, os bons costumes. Fica o que é imediato. Por que vou fazer um esforço para fazer o que não está à flor de minha pele qual desejo urgente e imediato? Por que vou correr na direção daquilo que não acaricia minha capacidade de sentir e gozar sem nenhum débito ou responsabilidade?

A vida de Santo Inácio foi uma constante corrida no encalço deste mais e um esforço contínuo de responder a essa pergunta instigante: "Por que tudo não pode ser mais?” Olhando meus quatro netos, pequenos e inocentes, penso em como incutir neles essa chama inextinguível do desejo que se pergunta diante da vida que se apresenta a cada dia: "Por que tudo não pode ser mais?”.

[Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].

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