Uma inquietude essencialmente cultural de um jovem, em meio a uma megalópole acinzentada como São Paulo, começou a dar forma a uma densa ideia, sobretudo do ponto de vista do forte sentido de transformação. Em 2002, O educador Rodrigo de Oliveira, licenciado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), começava a delinear um projeto de vida e profissão, a um só tempo. Após a vinda para Fortaleza (CE), o rapaz ladeou-se com diversos parceiros em projetos multiculturais, desenvolvendo várias linguagens artísticas que têm como vitrine o sítio Tembiú (www.tembiu.pro.br).
O ponto de partida foi a produção artesanal de instrumentos de percussão, em articulação com outras atuações. “Com isso, a cidade estaria alimentada, fortalecendo a malha poética”, filosofa. Assim, o músico tenta explicar o nome-conceito “Tembiú, Alimento de Alma” que acompanha as diversas iniciativas e produções de Rodrigo, para além da arte de luthieria (fabricação e restauração de instrumentos musicais). O compromisso simbólico transcende a aparente objetividade de algumas realizações, como a confecção de zabumbas, alfaias, surdos e bumbos, que trazem o espírito de tembiú marcado em cada peça.
De origem tupi (tembiú katu, “alimento bom”), o termo vai além da comida em si, fonte de energia para o organismo. “É uma oferenda a partir da qual o visitante pode reconhecer um pouco do terreno em que ele está pisando”, explica, com base nos estudos sobre a Língua Tupi, “o nosso povo original”, como ele qualifica. Daí porque a Tembiú, como produtora, compreende sua arte como uma forma de alimentar a alma do público.
Na passagem no setor pedagógico da organização Cidade-Escola Aprendiz, em São Paulo, Rodrigo de Oliveira começou a aprofundar a articulação entre cultura – no sentido amplo – e a educação, além, é claro, de elementos da comunicação. “Sempre tive essa mistura na minha vida”, diz. A ONG trabalha principalmente a experiência de “bairro-escola”, que busca criar espaços educativos na comunidade local para melhorar a qualidade de vida.
A inventividade do então estudante de Letras colaborou também na formação, dentro do Conjunto Residencial da USP (Crusp), do Cursinho Experimental Pré-vestibular, que atendia trabalhadores do entorno da universidade. "Todo o planejamento mesclava aulas expositivas, atividades culturais, mobilização comunitária e intervenção poéticas nos bairros e favelas, sendo que a produção do material didático era toda em cima dessas experiências", conta Rodrigo.
A participação no terceiro setor, a aproximação da luthieria e as aventuras educadoras parecem ter sido inspiradoras. “Ajudou muito a formar o embrião do que seria a Tembiú”, afirma.
Vindo para o Ceará em 2003 a convite de uma ONG, ele passou a fortalecer a Tembiú, a partir da divulgação da peça “A saga de uma certa bárbara”, um monólogo da atriz Juliana Carvalho montado em 2004. O alimento da alma passou, então, a ser cultivado a partir de quatro rizomas: artesanato (confecção de instrumentos); fomento artístico (produção e difusão de espetáculos); educação (ações sob a perspectiva da transformação e da autonomia); e comunicação em rede (sítio para divulgação, em rede, de informações diversas, com foco na afirmação cultural).
Rodrigo de Oliveira avalia que a fusão entre educação e comunicação (educomunicação) é permanente no trabalho desenvolvido pela Tembiú. “Quando se trabalha com educação, o potencial comunicativo gerado é imenso. Na comunicação, não dá pra não aproveitar a oportunidade de se gerar conhecimentos", detalha o educador.
Nos últimos meses, Rodrigo tem refletido sobre a condução do projeto da Tembiú, que vinha sendo marcado, segundo ele, por uma “atuação solitária” na manutenção do sítio na Internet. Por isso, para 2009, além de a atriz e psicóloga Juliana Carvalho voltar a chegar junto, ele tem se articulado com a bacharela em Filosofia Isabel Silvino e com o programador Alexandre Ruoso. Enquanto a primeira integra o Coral da Universidade Federal do Ceará (UFC), o segundo é coordenador de Projetos da Oktiva, empresa que é antiga parceira da Tembiú.
Para 2009, esse coletivo pensa em um novo projeto, com o nome de “Rede Tembiú de Palavracidade”, que prevê a articulação em rede de 12 grupos de comunicação alternativa e educativa de Fortaleza. O público, prioritariamente jovem, deve passar por uma formação educativa para organizar blogs com a intenção de falar sobre o cotidiano da cidade. A convergência das produções dos coletivos deve resultar no conteúdo do Portal Tembiú. “É como se [a gente] fosse pipocar a cidade com doze tembiús”, compara Rodrigo de Oliveira.
Como resultado, segundo Rodrigo de Oliveira, o projeto vai produzir o conteúdo do Portal Tembiú. O educador diz ainda que está com um espetáculo de teatro – “Rãmlet Soul” – em processo de produção, com estreia prevista para maio próximo.
As matérias do projeto “Boas Ideias em Comunicação” são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).
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