Dona Idair, uma senhora negra de uns 60 anos, de repente toma a palavra: “Primeira vez que cheguei aqui nesta casa para participar de uma reunião era para ver se eu ia ganhar o Bolsa Família de volta, que fazia alguns meses que não recebia. O pessoal foi falando, falando e nada de entrar o assunto do Bolsa Família que me interessava. Já estava querendo ir embora. Mais pro final da tarde o pessoal resolveu fazer um teatrinho. Pediram o Cartão do Bolsa Família para todas. Eu não tinha. Então me fizeram um cartão de papel e assim eu participei. Aí me dei conta que eu não precisava mais receber o Bolsa Família, que eu não tinha porque depender dele, que eu podia viver sem ele. Não recebi mais e não fui atrás. Outras pessoas vão atrás e não se esforçam para outra coisa. Eu oriento quem me pergunta e digo que devem buscar porque é um direito. Mas elas não precisam depender totalmente a vida toda. As reuniões me abriram os olhos. Peguei consciência de que eu podia viver sem precisar sempre de uma ajuda do governo. Sempre me lembro desta história quando falam do Bolsa Família”.
Pergunto para dona Idair: “E do que a senhora vive agora?” Responde ela: “Olha, dei um jeito e consegui me aposentar com um salário mínimo. Com outras pessoas, fazemos coisas junto para ganhar um dinheirinho a mais, porque o salário de aposentada é muito pouco. A pizza que nós comemos ontem à noite fomos nós que fizemos (Afianço, grifo meu: estava muito boa). Amanhã vamos vender uns doces na feira. Assim a gente vai se ajudando uma a outra e vai vivendo”.
A conversa deu-se no Encontro Estadual da Rede TALHER de Educação Cidadã (RECID) do Paraná, Curitiba, Casa do Trabalhador. O objetivo dos dois dias era, depois de uma análise de conjuntura, estudar o Programa Nacional de Formação da Rede e preparar a proposta estadual de formação. A pergunta que suscitou a fala de dona Idair era: “Quais os limites e a contribuição que a RECID-PR está proporcionando para o processo de transformação social?”
E todos desandaram a falar. Ana: “A Rede tem um olhar diferente, não hierarquizado, que foge das estruturas dos anos 80. Há uma nova leitura da sociedade e dos modelos de desenvolvimento. Há um jeito próprio de fazer da Rede. Numa Conferência Municipal de Segurança Pública, um jovem falou: ‘É preciso estar aberto para o amor, algo que vem de dentro; é preciso uma mudança de valores morais’. É preciso tirar do isolamento e mobilizar por baixo. Incomodamos muito. Não dá mais para esconder a pobreza que existe em Curitiba. A gente mostra a pobreza, traz as pessoas para as ruas, para o espaço público.” E Ana contou do trabalho com os indígenas urbanos, com os quilombolas de Adrianópolis, Vale da Ribeira, onde é muito difícil de chegar. E diz que há dificuldade de fazer trabalho de educação popular com crianças, o que seria muito importante. Diz ela: “É preciso cada educador fazer um diário de campo, para contar a riqueza das coisas que se fazem”.
Gisele: “As publicações que a gente faz têm contribuído. Como aquela sobre o consumo, que é um tema tão importante agora na reflexão sobre a crise econômica”. “Os limites muitas vezes são os valores capitalistas que correm no sangue de todo mundo. Aí é preciso construir espaços para que floresça o espírito de Porto Alegre, em contraposição ao espírito de Davos: Feiras da troca solidária, por exemplo. É preciso fazer na prática, não no discurso, estimulando outros valores, outras formas de economia, atacando o consumismo. É preciso fazer a disputa de valores”.
A Aloir, a Taís e o Rodrigo contaram suas experiências em Irati, Guarapuava e região, interior do Paraná. Disseram que é preciso chegar no governo local, com propostas para a economia solidária. É preciso chegar no prefeito e na Câmara de Vereadores, mesmo que haja diferenças partidárias, exigindo políticas públicas. É preciso fazer uma renovação nos movimentos. A retomada da análise de conjuntura, que era pouco feita, tem sido importante. Disseram que discutem muito a gestão compartilhada com a juventude. Os recursos são geridos conjuntamente, com divisão de tarefas, os jovens assumindo responsabilidades e dizendo onde investir. Promove-se a dança, o teatro, o curso de comunicação, tudo com gestão compartilhada. Em Irati, formam-se Comissões nos Bairros. A idéia é constituir Fóruns municipais de debates da juventude. “Os jovens sentem-se parte do projeto. Constroem junto. Participam das Conferências e dos Conselhos Municipais. Muitos jovens não percebem que estão entrando. Quando vêem, já estão ganhos. E vão amadurecendo como lideranças”.
João Santiago relata que em Pedro II e Floriano, no Piauí, de cada 30 pessoas participantes dos encontros 25 são jovens. A Rede acaba sendo um espaço de diálogo. Há retorno ao trabalho de base. Em Parnaíba (PI), cada grupo de um encontro resolveu escrever uma Carta Pedagógica. Aí eles dizem: ‘Aqui a gente aprende e pode sonhar’. Há uma metodologia de pertença. “É como aconteceu com dona Idair. Ela descobriu sua pertença”.
Mara fala de como através do teatro e do rádio chega-se no jovem, que acaba tendo uma leitura do mundo. Ela ficou espantada com um guri de 13 anos que queria falar sobre a crise. E aí fala-se da sexualidade junto com a realidade social. A juventude em geral está informada. “É preciso abrir espaços, com paciência, proporcionar troca de experiências, fazê-los conhecer novas realidades como a Câmara de Vereadores”.
São vivências, como outras tantas, que acontecem todos os dias em tantos lugares. Talvez pouco ou nada de novo, mas precisa ser dito, revelado, conhecido. Depois de duas décadas de quase silêncio, ou de um tempo onde as palavras como que batiam num muro e voltavam, não tinham ressonância, não iam adiante, e era apenas resistir contra a maré neoliberal, agora parece que portas se abrem, muros caem, luzes aparecem no fim do túnel. A vida já não é tão dura e sofrida para todos; é possível falar de amanhã. Os que tinham todas as verdades do mundo e da vida, agora estão na dúvida, sem saber do futuro. Quem volta a ter esperança são os do espírito de Porto Alegre. Os outros, os de Davos, preocupam-se em descobrir onde erraram: o que afinal levou a GM a quebrar, os bancos a falir, o mercado que resolvia tudo a implorar ajuda do Estado antes vilipendiado?
Os caminhos ainda não estão definitivamente claros. Mas o debate, o estudo, as experiências de base vão mostrando onde há esperança, sonho, utopia. Hora de retomar a caminhada com força e coragem, na solidariedade, juntos. A história não acabou.
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