Em entrevista a ADITAL, ela fala sobre as peculiaridades, riquezas e contribuições da teologia indígena.
ADITAL: Todos os povos sempre fizeram teologia, mas quando começou a teologia índia mais sistematizada? Qual a amplitude que tem hoje a rede que a teologia índia estabeleceu com outros países e outras teologias?
Sofía Chipana – Bem, a teologia índia surge a partir dos anos 70, talvez não com ese nome, mas já como uma iniciativa de poder articular a reflexão teológica desde o olhar indígena. Numa primeira instância, essa teologia começa a se articular à base de missionários e sacerdotes no ámbito católico a partir de uma preocupação pastoral, com um interesse de sistematizar a teologia índia como tal. Então, é aí que se começa a se gestar um pouco a articulação em diversos espaços na América Latina. Por exemplo, temos esta teologia em parte da Mesoamérica; [esta teología] começa também em nível de Amazônia, mas se desenvolve com muito mais força na parte andina da América Latina.
Há todo um proceso que cada região vem assumindo. Eu sou mais da parte da região andina e ali se tem articulado e sistematizado a teologia. Numa primeira instância, tem sido predicada por sacerdotes e missionários e, depois, num segundo momento, somos os e as indígenas que começamos a ser sujeitos da teologia índia; já começamos com uma reflexão própria partindo de nosso olhar, do nosso ser, da nossa identidade.
Atualmente já somos teólogos e teólogas que estamos tentando articular e sistematizar a reflexão da teologia índia. Quem sabe não existe uma articulação específica do que seria uma reflexão constante ou uma sistematização constante da teologia índia, e sim mais compartilhar experiências, porque sinto que o proceso da teologia índia é feito de outra forma, ou seja: que não é necesariamente através de sistematizações escritas, pois para nós, os e as indígenas, a experiência, as vivências, o compartilhar é muito importante porque procedemos de culturas de tradição oral, onde a oralidade é muito forte e, além disso, o uso de outros elementos como, por exemplo, os símbolos.
Através dos símbolos somos capazes de expresar nossa reflexão, nossas vivências. Talvez tenhamos dificuldade de entrar dentro de um marco assim muito acadêmico, porque nossa sistematização não é assim como esse tipo de teologia que começa a articular a escritura e começa a refletir e a expor por escrito suas reflexões. Pelo contrário, para nós, como é uma experiência, muitas vezes nos custa sistematizar estes tipos de experiências e realmente há elementos que nos dá trabalho para colocar por escrito.
Sinto que agora estamos nesse proceso de compartilhar, de conseguir planejando nossas experiências e vivências que, de algum modo, também estão marcando nossa reflexão teológica nos diversos espaços em que estamos.
ADITAL: Há alguns pontos que você percebe que são fundamentais nessa teologia e que marcam o sentido dessa reflexão, sempre em processo?
Sofía Chipana – Sim, são vários elementos. Eu os chamos de núcleos-chaves, como nós fortes que sustentam a teologia índia. Por exemplo, o tema da narração. Para nós é muito importante narrar e é parte de nossa cultura, então através da narração se tem transmitido a espiritualidade, as vivências, as normas e os códigos éticos da cultura.
Outro aspecto que também importante é esse que agora chamamos de "sentir-pensar”, ou seja que nossa reflexão não está baseada somente na razão, mas resgata muito o tema do subjetivo frente a uma teologia e a uma tradição onde se valoriza o objetivo, o uso da razão. São uma mescla de sentimentos, de subjetividades e isso tem a ver com a ritualidade dos diversos espaços, tem a ver com as celebrações, tem a ver com o caráter festivo, tem a ver com o comunitário. Este núcleo do "sentir-pensar” é muito importante.
ADITAL: E como pode ser recriada uma liturgia mais viva no sentido de expressar a cultura e os sentimentos pessoais e dos grupos específicos?
Sofía Chipana – Te dizia que para o contexto andino, a ritualidade, a festividade, o ato comunitário é bem importante e bom. Isso, de algum modo, na liturgia cristã ou católica é pouco aceito. Com a inculturação se acolheram alguns símbolos, porém mais para a perspectiva folclórica e não tanto desde a perspectiva do que se contém esse símbolo de fundo. E aí que na articulação entre esta vivência do andino com o cristão se tenha gerado certa ruptura. Como a gente já é acostumado a ver algum tipo de liturgia mais estabelecida, se sente tímido para incorporar alguns elementos de nossa própria cultura.
ADITAL: Mas alguns elementos se fundem…
Sofía Chipana – Mas o que vemos aqui, para mim, não é um sincretismo porque o sincretismo se dá quando se começa a fazer essa mescla de coisas. No contexto andino, eu não falaria de um sincretismo e sim que cada coisa tem seu espaço, cada coisa tem seu lugar. É por isso que alguma vez me atrevi a falar que se trataria mais de uma religião compartilhada, da qual os povos indígenas começaram a articular isso: um diálogo com o cristianismo.
É verdade que em nossos ritos existem elementos cristãos que são valorizados, então creio que a partir desse contexto andino se começa a fazer outros tipos de articulações que não entram dentro do marco oficial, mas sim que há outros tipos de recriações que não são do sincretismo, mas são recriações diferentes que estão começando a diaologar de um modo diferente.
ADITAL: Dentro dessa teologia índia, também, é claro, vai aparecendo um novo rosto de Deus. Como é esse rosto?
Sofía Chipana – Bom, o rosto de Deus que se percebe é mais que um rosto, é a presença de Deus em meio ao povo, porque para muitos povos indígenas, em sua espiritualidade, Deus não esta fora da realidade. Ou seja, a divindade que falamos está imersa na realidade, é imanente, presente em diversos elementos. Por isso, às vezes, os povos indígenas são catalogados como panteístas porque consideram que cada coisa é sagrada e que isso é Deus; e não se leva em consideração que a espiritualidade dos povos indígenas tem a ver com a imanência de Deus, com o que está presente em todo momento e isso faz com que em todo momento e em todas as realidades a natureza mesma seja sagrada. E isso contrasta completamente com o cristianismo.
Por outra parte se percebe a este Deus que é trascendente porque, por exemplo, na cultura andina a imagen da divindade é a Pachamama, que está presente e se materializa na natureza e está em contato direto com os humanos e com outros seres, mas também tem esta outra dimensão trascendente que é tudo, que é uma divindade que abarca a todas as realidades e que transcende as realidades mais cotidianas.
A partir daí, vejo que realmente na teologia índia rompemos a imagen de Deus de maneira estática, suprema, toda-poderosa. É mais a imagen de um Deus que está na vida, perto, com o qual se pode falar, a quem se pode acudir através da ritualidade, da vivência, através do comunitário, da vivência ética dos povos.
Então sinto que é uma imagen de Deus muito ampla, é como a mãe que nos abriga.
ADITAL: Um Deus mais próximo ao Pai de Jesus Cristo que ao Deus do catecismo…
Sofía Chipana – Sim, sim. No evangelho se apresenta esta imagen de Deus com pai, que correspondia também a seu contexto, à cultura do apresentar uma imagen de Deus muito próxima. Creio que essa é imagen de Jesus, apresentar a proximidade de Deus. Claro, as culturas andinas ou indígenas têm a ver com isto e o que se tenta buscar é isto, a imagem de um Deus ou a presença de Deus em meio de tudo. E não é esse Deus que está fora, não é esse Deus que está nos templos, não é esse Deus que precisa de mediadores para se relacionar, mas é esse Deus que está rompendo, inclusive, fronteiras. Realmente é esse Deus que está a favor da vida e, bom, às vezes também na teologia indígena não se mostra a outra perspectiva de Deus que é uma divindade que também reaje frente a algumas atitudes éticas do ser humano que não são corretas, mas no sentido de orientação do que de castigo.
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