español | institucional
1441 leitores online
Estatísticas cadastre-se | fale conosco | anuncie |
Quarta-Feira, 22 de maio de 2013
Doe Adital 1
Siga-nos:

Haiti por si_
12.07.12 - América Latina
Um dragão no quintal
Raúl Zibechi
Jornalista uruguaio, comentarista e escritor, responsável da seção internacional de Brecha. Docente e pesquisador na Multiversidade Franciscana da AL
Adital

Tradução: ADITAL

A China propõe aliança estratégica ao Mercosul

A crise política no Paraguai e suas repercussões na região jogaram para o segundo plano na agenda informativa a visita do primeiro ministro chinês, Wen Jiabao, e a renúncia do principal cargo do Mercosul. A China mostrou que está disposta a jogar forte, inclusive na principal zona d influência dos Estados Unidos.

As polêmicas no contexto do golpe no Paraguai, a suspensão do país do Mercosul e a entrada da Venezuela não conseguem dissimular as dificuldades do Bloco, atingido pelas consequências da crise mundial e pela ascensão da China como potência global. A aliança está paralisada porque o que convém a uns prejudica a outros.

A renúncia do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Alto Representante Geral do Mercosul, na recente Cúpula, em Mendoza, expressa as dificuldades. Em sua carta-relatório de despedida faz uma lúcida análise sobre a realidade atual do Bloco.

Assinala que a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos e a ascensão da China geram um enorme fluxo de capitais rumo ao sul, o que "corroi os vínculos comerciais intra Mercosul, que são o principal cimento do processo de integração”. A desindustrialização, assinala, é uma das piores consequências e deve ser enfrentada utilizando os recursos da exportação de commodities.

Expansão gradual

Em um dos parágrafos mais polêmicos, Pinheiro assegura que a Unasul "não pode Sr a pedra fundamental para a construção do Bloco econômico da América do Sul” porque o Chile, a Colômbia e o Peru assinaram Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos, o que impossibilita a construção de políticas regionais de promoção do desenvolvimento.

Por isso, acredita que o bloco regional deve ser formado "a partir da expansão gradual do Mercosul”, incluindo a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Suriname e a Guiana. Os últimos deverão contar com condições especiais de ingresso devido ao seu baixo nível de desenvolvimento e o interesse político que têm para a região.

Para avançar, diz o embaixador, o Bloco deve aumentar de maneira significativa s coordenação política e a cooperação econômica. "A característica central do Mercosul são as assimetrias”, que provocam tesões políticas. Aposta em uma forte expansão dos recursos do Fundo para a Convergência Estrutural para favorecer aos pequenos, que hoje conta com apenas 100 milhões de dólares anuais.

Quiçá o momento mais luminoso de sua carta seja o parágrafo 34: "Em um mundo multipolar, em crise, com grandes mudanças de poder, não é do interesse de nenhum Bloco ou de nenhuma potência a constituição ou o fortalecimento de um novo bloco de Estados, especialmente se são periféricos. Qualquer grande potência considera mais conveniente negociar acordos com Estados isolados, principalmente se são países subdesenvolvidos, mais débeis econômica e politicamente”.

O Bloco do Mercosul interessa somente aos seus membros. No entanto, quando foi criado, em 1991, não foi concebido como instrumento para apoiar o desenvolvimento, mas como união alfandegária para promover o livre comércio. A proposta de Pinheiro consiste em que chegue a ser capaz de impulsionar um desenvolvimento regional harmonioso e equilibrado, eliminando as assimetrias e construindo uma legislação comum, de modo gradual.

Essa virada é necessária porque as respostas dos países industrializados à crise, na prática, são "uma verdadeira suspensão dos acordos da OMC negociados na época de hegemonia do pensamento neoliberal”. Se o Mercosul não dá esses passos, "poderá sobreviver, porém, sempre com dificuldades e não se transformará no bloco de países capazes de defender e promover seus interesses nesse novo mundo que surgirá da crise em que vivemos”. O diagnóstico, feito por um dos mais destacados intelectuais do Brasil, aponta que o mundo está entrando em um período de crescente protecionismo, daí a necessidade de formar blocos com forte comércio interior.

A China se anima

Wen Jiabao, primeiro ministro chinês, visitava a região quando acontecia o golpe no Paraguai. O momento culminante de sua visita ao Brasil, ao Uruguai e à Argentina foi a vídeo conferência que manteve desde Buenos Aires, no dia 25 de junho com Dilma Rousseff, Cristina Fernández e José Mujica.

Segundo a agência chinesa Xinhua, o primeiro ministro fez três propostas: fortalecer a confiança mútua e a comunicação estratégica com o Mercosul, duplicar o comércio para 2016, levando-o a 200 bilhões de dólares, além dos investimentos e da cooperação financeira e tecnológica, e fomentar as relações bilaterais no campo da educação e da cultura (Xinghua, 25 de junho de 2012).

A proposta de Wen Jiabao foi interpretada por seus interlocutores como o que realmente é: uma vasta aliança estratégica que inclui também um Tratado de Livre Comércio China-Mercosul. A destacar que se aproveitou que o Paraguai estava para ser suspenso do Mercosul, já que não tem relações com a China. Dois dias depois ofereceu uma importante dissertação na Cepal, em Santiago do Chile.

Sua proposta, dirigida para a América Latina e para o Caribe consiste em "combater o protecionismo”, "aprofundar a cooperação estratégica” e abrir novos mercados com o objetivo de que o intercâmbio comercial bilateral "supere os 400 bilhões de dólares no próximo lustro” (Xinghua, 26 de junho de 2012). Propôs a criação de um fundo de cooperação ao qual a China fará uma contribuição inicial de 5 bilhões de dólares e uma linha de crédito de 10 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China para a construção de infraestruturas.

Além disso, propôs uma ampla cooperação agrícola e estabelecer um mecanismo de reserva alimentar de emergência de 500 mil toneladas destinado a contingências naturais e ajuda alimentar, incluindo a instalação de centros de investigação e desenvolvimento em ciência e tecnologia agrícolas.

A oferta chinesa parece tentadora em momentos em que o Mercosul atravessa enormes dificuldades. A Cepal elaborou um documento intitulado "Diálogo e cooperação ante os novos desafios globais”, onde analisa as possibilidades que se abrem à região ante a ascensão chinesa. Alicia Bárcenas, secretária executiva da Cepal, assinalou no prólogo que a região está ante uma oportunidade histórica para dar um salto em infraestrutura, inovação e recursos humanos, ou seja, "traduzir a renda dos recursos naturais em formas variadas de capital humano, físico e institucional”.

Para dar esse salto deve atrair investimento direto da China que lhe permita diversificar as exportações. Dos mais de 40 partes que constituem o documento, um deveria ser especialmente atendido pelos países da América do Sul: até 2030 dois terços da população de classe média viverão na região Ásia-Pacífico frente a somente 21% feitos na Europa e na América do Norte.

Em consequência, a classe média asiática se transformará em "mercado chave para os alimentos, confecções de maior qualidade, turismo, fármacos, serviços médicos, varejo e artigos de luxo”, o que permitirá que a América Latina diversifique suas exportações e lhes some valor agregado. Agrega que a internacionalização pode beneficiar a região já que a China converteu-se no segundo sócio comercial.

Por uma agenda regional

Entre as conclusões, destaca-se que a ascensão da China permite que a região sul-americana prolongue o ciclo favorável de termos de intercâmbio que vive desde 2001: "Se não se aproveita bem o momento, poderia acentuar-se o processo de reprimarização exportadora, estabelecendo modalidades renovadas do vínculo centro-periferia”.

A Cepal aponta para a necessidade de estabelecer uma "agenda regional concertada de prioridades”, que supere as iniciativas unilaterais. Ou seja, o decisivo é o que denomina como o "desafio interno”. Nesse ponto decisivo, a análise de Samuel Pinheiro e da Cepal coincidem plenamente. No entanto, a guerra comercial entre os membros do Mercosul continua sendo um fator de desestabilização.

Em geral, as divisões escalam da economia à política. A entrada da Venezuela decidida na Cúpula d Mendoza provoca reações encontradas. É o tipo de problemas aludido por Pinheiro: falta de confiança mútua, falta de visão estratégica, predomínio das questões locais sobre as gerais e de curto prazo sobre o largo prazo, incapacidade de compreender as mudanças globais. Em outras palavras, é o predomínio da "pequena política”. O que está em jogo é muito importante e nem todos parecem compreender isso.

Link permanente:
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para:
Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
Início
Hotsites
Mais lidas (nos últimos 7 dias)
  1 2 3 4 5