Essa semana de julho traz para os povos da América Latina recordações históricas importantes. No 19 de julho de 1979, os sandinistas entraram vitoriosos em Manágua e proclamaram a Nicarágua livre de uma ditadura que durava quase 40 anos. No dia 17 de julho, nos Andes, os índios recordam a figura mítica de Tupac Amaru. No século XVIII, esse índio se proclamou descendente do Inca e juntou os povos indígenas em uma revolta contra o domínio espanhol. Ganhou muitas batalhas, mas foi traído por um dos seus companheiros e para que não houvesse uma carnificina se entregou e foi enforcado. Entretanto, talvez a recordação mais básica seja de que nesse mesmo dia, em 1566, falecia Bartolomeu de las Casas, primeiro bispo de Chiapas, no sul do México e defensor da dignidade dos índios contra o sistema colonizador e escravagista. Ele era um frade dominicano que, ao ver o sofrimento dos índios se converteu e se tornou missionário e teólogo para lutar contra a escravidão. Defendeu a dignidade dos índios junto ao rei da Espanha e escreveu o primeiro tratado de teologia e espiritualidade que ensina: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado pelos que se dizem cristãos.
Atualmente, quase cinco séculos depois, podemos lamentar que ao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador em si mesmo. E há quem o acuse de ter aceito o tráfico e a escravidão dos africanos para substituir os índios nas minas e engenhos da colonização. Não há provas disso. De fato, ao morrer em 1566, Las Casas não chegou a antever esse problema. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América floresceu em época posterior, a partir das últimas décadas do século XVI. Seja como for e mesmo se tem contradições, em nossos dias, os escritos desse grande missionário são referência para uma nova concepção intercultural de missão e de leitura da história a partir das vítimas e não dos vencedores.
Hoje, uma espiritualidade lascasiana rejeita uma missão cristã que tenha como objetivo conquistar adeptos para a fé e a assume como diálogo que valoriza a presença divina em toda realidade humana e respeita a diversidade das culturas. Ainda em nossos dias, aqui no Brasil, povos indígenas continuam massacrados, vítimas de um modelo de progresso que olha os índios como estorvo para a concentração de terras, o agro-negócio e os lucros das grandes empresas. No Mato Grosso do Sul os Guarani-Kaiowá são perseguidos. No último ano, várias lideranças foram assassinadas e a quase cada semana ocorre, nas aldeias, um suicídio de jovens que não aceitam ser escravos nas fazendas de soja da região, envenenados pelos agrotóxicos que são obrigados a manipular.
A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios por motivos humanos e sociais, mas também por uma exigência espiritual da fé. Não podemos aceitar projetos de desenvolvimento que não levem em consideração o respeito aos povos que sempre foram vítimas da história e suas culturas religiosas. Em 1815, Simon Bolívar, o libertador da pátria grande que é a América do Sul, em sua "Carta de Jamaica”, considera o elemento religioso como aglutinante da alma americana e formula "a necessidade urgente de uma união de nossos povos, ligados por elementos culturais e religiosos comuns”. Viver isso hoje é retomar uma espiritualidade lascasiana e libertadora.
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