Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá* para Adital - Depois de seis anos à frente de um projeto revolucionário de atendimento a vítimas da violência urbana em Cali, na Colômbia, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras está deixando o distrito de Aguablanca, um dos mais violentos do país. A partir desta segunda, 20 de dezembro, toda a infra-estrutura, os equipamentos, veículos e pacientes do Programa de Reabilitação Integral e Prevenção de Violência estarão a cargo da ESE Oriente, uma empresa social ligada à prefeitura da cidade. Apesar de Cali ter sido a sede de um dos maiores cartéis de cocaína da América Latina e estar próxima a regiões ainda dominadas pela guerrilha de esquerda ou Paramilitares de direita, menos de 20% dos homicídios na cidade têm relação direta com o comércio de drogas, e em todo o país não chegam a 15% as mortes relacionadas ao conflito interno. Como na maior parte dos países na América do Sul, os altos índices de violência refletem muito mais questões econômicas e de exclusão social.
"MSF veio a Cali em 1996 para tentar ajudar a diminuir o número de adolescentes grávidas e mortes em parto, mas também encontramos este quadro terrível de violência, com gangues de jovens desocupados lutando entre si, famílias completamente desestruturadas, vizinhos se matando por motivos fúteis e adolescentes sem perspectivas a longo prazo desejando apenas o consumo imediato de símbolos de status, como tênis importados, e não se preocupando se têm que matar para isso", conta Justine Simons (foto), coordenadora do Programa de MSF. "Um dos grandes motivos é o dinheiro fácil das drogas na metade os anos 1990 associado à falta de presença do Estado, e o fato é que não existe nenhum trabalho realístico para desconstruir esta cultura da violência".
Se não há um trabalho cultural e nem uma transformação social à vista, pelo menos no campo médico a situação está mudando. Nos primeiros anos, MSF tentou atrair os jovens para centros de recreação mas a iniciativa não teve grande impacto. Assim, a entidade decidiu se concentrar na questão médica e oferecer serviços pós-hospitalares de atenção integral para as vítimas de violência urbana que não eram fornecidos pelo Estado. O Programa, iniciado em 1998, seria consolidado a partir de 2001 com uma estrutura de atendimento envolvendo não somente aspectos físicos, como também sociais, familiares e psicológicos.
O processo começa com a visita dos promotores treinados por MSF a lesionados nos hospitais e também em casa, para explicar o Programa e convidar as vítimas de violência a participar dele. Os pacientes que quiserem fazer parte passam primeiro por uma entrevista com uma assistente social que verifica situação legal, de emprego, residência, família, etc. Em seguida o setor de enfermagem faz uma avaliação do quadro clínico e dos procedimentos médicos realizados. O próximo passo é dado pelos fisioterapeutas que definem o tratamento de reabiliatação física, quando possível, ou de diminuição das seqüelas. Por último, os pacientes são atendidos pelos psicólogos que acompanham o impacto emocional que o evento violento teve na vida das pessoas diretamente atingidas e tentam envolver as famílias na recuperação. O objetivo é a promoção da "convivência pacífica".
Em seis anos, o Programa de Reabilitação Integral e Prevenção de Violência atendeu a mais de 2.700 pessoas (o hospital local recebe cerca de 3.000 vítimas de violência por ano). Destes, 20% sofreram lesões graves e que resultaram em incapacidades permanentes e recebem um tratamento médio de cinco a seis meses para se adaptarem à nova situação. O restante sofreu lesões mais simples, que em geral podem ser totalmente revertidas com dois a três meses de cuidados e fisioterapia adequados. Tudo depende, é claro, do esforço da pessoa atingida e do envolvimento da família em sua recuperação. De qualquer forma, o Programa é um sucesso absoluto e tem atraído a atenção tanto do Estado como da sociedade civil. E mais, muitos pacientes atendidos descobrem um novo sentido na vida e mudam seus rumos.
Por causa de seu impacto positivo na sociedade, a continuidade do programa é fundamental. Como não é um programa típico de MSF, seus coordenadores sempre souberam que um dia teriam que conseguir recursos para que ele se mantesse de forma independente, ou fosse transferido para o Estado. "Em 2003 fizemos um estudo sobre financiamento para programas de prevenção à violência e descobrimos que existia dinheiro disponível tanto pelo BID como pelo próprio Plano Colômbia, mas que o governo não tinha nenhum programa de saúde que pudesse utilizar esses recursos", explica a enfermeira Madelen Hernandez. "Com isso conseguimos convencer a prefeitura de Cali a assumir o Programa e nos responsabilizamos a transferir nosso conhecimento e capacitar todo o pessoal de atendimento".
Mais do que isso, MSF decidiu envolver toda a comunidade de Aguablanca. Além dos oito médicos treinados por quatro meses nas diretrizes do Programa, os líderes comunitários também foram convidados a participar e cerca de 200 voluntários foram capacitados para difundir o projeto na comunidade. Sete ex-pacientes formaram um "grupo de ouvidores" para receber reclamações ou sugestões de novos pacientes e outras oito pessoas que estão sendo atendidas estão montando uma "liga de usuários", também para garantir que se mantenha o mesmo nível de qualidade. Foram produzidos ainda uma exposição fotográfica e um livro chamados Histórias de Vida - Memórias no Corpo, que tiveram grande repercussão na mídia nacional. Com isso, a iniciativa ultrapassou as fronteiras de Cali e atingiu o país inteiro.
"Neste momento estamos traduzindo todo o material sobre o Programa para distribuição dentro de MSF e disponibilizando o acesso a todas as ONGs interessadas de modo a estimular sua replicação em outras regiões e países", conta Justine. "Também temos dado palestras e cursos nas universidades e hospitais de Cali". O problema é que o Programa não é um projeto de emergência médica característico de MSF e a entidade, como todas as organizações humanitárias, está enfrentando uma baixa nas doações internacionais desde o início da "Guerra contra o terror" estadunidense. De qualquer forma, a estratégia de divulgação já está germinando. Outros quatro projetos semelhantes estão em implantação em Cali e a própria MSF estea analisando a possibilidade de implantar o Programa em Medelín.
* Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá são colaboradores da Adital e jornalistas da Media Quatro.