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Sábado, 31 de julho de 2010
24.12.01 - BRASIL Gênero
Chico Mendes, treze anos depois (José Santamarta)
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José Santamarta (24.Dezembro/2001) - Chico Mendes, conhecido internacionalmente por sua luta em defesa da Amazônia, foi assassinado dia 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, pequena cidade da Amazônia brasileira próxima à Bolívia. Nos últimos 20 anos, mais de 1.000 líderes camponeses, sacerdotes, sindicalistas foram assassinados na Amazônia brasileira; mortes atribuídas, em sua maioria, à União Democrática Ruralista (UDR), organização dos latifundiários brasileiros. Os assassinos materiais foram o latifundiário Darly Alves da Silva e um de seus 21 filhos, Darcy Alves Pereira, que foram julgados e condenados em dezembro de 1990 a 19 anos de prisão, mas fugiram da prisão de Rio Branco capital do Acre, em 1993 sem muitos problemas; Darly foi detido de novo, em 1996. "Chico gostava muito de jogar dominó. Estava jogando desde as quatro da tarde. Às seis e meia lhe pedi que parasse, para servir o jantar. Então levantou-se da mesa, disse que ia tomar um banho e perguntou se podia usar a toalha que ganhou de presente no seu aniversário. Disse-lhe que sim. Pegou a toalha e se dirigiu até a porta. Abriu uma veneziana, viu que estava escuro e voltou. Pegou uma lanterna, abriu a porta e então dispararam contra ele". Ilzamar Gadelha, esposa de Chico Mendes, que na época tinha 24 anos, recorda com estas palavras os últimos momentos de seu marido, a quem no dia 22 de dezembro, um tiro de escopeta disparado por Darcy Alves tirou a vida. O assassinato de Mendes, se não fosse pela repercussão internacional, haveria ficado tão impune como os mais de 1.000 crimes registrados nos últimos anos, na Amazônia brasileira. Um mês antes da morte de Chico, o advogado e latifundiário João Branco, presidente da UDR do Acre, esteve na fazenda de Darly Alves discutindo o assassinato de Chico Mendes, segundo Genésio Ferreira da Silva, um rapaz que na época tinha 14 anos e era empregado de Darly. Para muitos, João Branco foi o verdadeiro instigador da morte de Chico Mendes e outros líderes sindicais no Acre. Declarou como testemunho em julgamento, mas nunca foi julgado. A UDR do Acre, segundo Chico Mendes, "é o núcleo de um autêntico esquadrão da morte". Seus principais integrantes na época em que Mendes foi assassinado eram João Branco, Rubem Branquinho, que foi candidato a governador do Estado; o ex- prefeito de Rio Branco, Adalberto Aragão, o deputado do partido da Frente Liberal, João Tezza, os latifundiários Benedito Rosa e Gastão Mota; o ex- prefeito de Xapuri, Vanderlei Viana e o vereador de Brasiléia, Luis Assem. Os crimes cometidos ficaram impunes. Manifestações Em 10 de março de 1976, os seringueiros organizaram a primeira manifestação em Brasiléia, município próximo a Xapuri, no Acre. Entre 1976 e 1988, Chico Mendes e outros líderes como Wilson Pinheiro (assassinado no dia 21 de julho de 1980) organizaram 45 manifestações pacíficas para evitar a devastação de um seringal, área de selva explorada pelos extratores de borracha. O saldo foram 400 detidos, 40 torturados e vários mortos, mas conseguiram impedir o desmatamento de 1,2 milhões de hectares de selva. Estas ações sempre se chocaram com os interesses dos grandes latifundiários. Poucos dia antes de morrer, Chico Mendes, que tinha 44 anos quando foi assassinado, declarou: "Se descesse um enviado dos céus e garantisse que a minha morte facilitaria nossa luta, até valeria à pena. Mas, a experiência me ensina o contrário. As manifestações ou os enterros não salvarão a Amazônia. Quero viver". Mendes era um serigueiro, extrator de borracha, descendente dos imigrantes nordestinos, assentados desde um século na Amazônia. Nasceu em 1944 em um seringal chamado "Porto Rico", no Estado brasileiro do Acre. Começou a trabalhar aos nove anos e até os 24 não tinha aprendido a ler. Era um lutador nato e, desde jovem, desenvolveu um infatigável trabalho em defesa dos seringueiros. Participou da criação da Central Única de Trabalhadores e do Partido dos Trabalhadores, e estava afiliado ao Partido Verde do Brasil. Chico Mendes foi o principal mentor do "Conselho Nacional dos Seringueiros". Sua oposição ao desmatamento lhe deu uma grande projeção internacional. De seringueiro se transformou em sindicalista e de sindicalista em ecologista. Treze anos depois da morte de Chico Mendes, a pergunta inevitável é se valeu a pena. Sim e não. Sim porque seu assassinato atraiu a atenção internacional sobre a destruição da Amazônia e a violação dos direitos humanos, acabou com a impunidade absoluta e acima de tudo possibilitou a criação das chamadas reservas extrativistas. Hoje um de seus companheiros, Jorge Viana, foi eleito governador do Estado do Acre e outro líder seringueiro, Julio Barbosa, é prefeito de Xapuri. Não, porque a cooptação de algumas de suas propostas pelo governo e as ONG's supuseram a perda de muitos de seus conteúdos sociais e ambientais; não, pela desmobilização do movimento dos seringueiros e outros movimentos sociais amazônicos e não porque continua o desmatamento e a violação dos direitos humanos na Amazônia brasileira. As reservas extrativistas estão em crise, devido aos baixos preços da borracha, incapazes de competir com os monocultivos e as importações, e outros produtos alternativos, como a castanha do Brasil, o açaí, e frutas como o cupuaçu, o camu-camu; é difícil que proporcione uma vida digna à população. As alternativas a longo prazo provavelmente paguem os serviços ambientais que a conservação do bosque da Amazônia presta ao Brasil e ao mundo, como o ciclo hidrológico, o freio da erosão, a conservação da biodiversidade, ou a retenção de carbono. Em 1978 foram desmatados 152.000 quilômetros quadrados na Amazônia brasileira (3,8% do total). Em 1988, ano da morte de Mendes, a cifra alcançava os 377.000 quilômetros quadrados (9,4%) e, em 2000, último ano para que existam cifras seguras, o desmatamento alcançava os 587.000 quilômetros. Treze anos depois da morte de Chico Mendes, suas propostas de frear o desmatamento, defender os direitos humanos, realizar a reforma agrária, fazer uso sustentável da biodiversidade e melhorar a qualidade de vida dos mais de 15 milhões de pessoas que habitam a Amazônia, são mais necessárias do que nunca. José Santamarta é Diretor da Revista sobre meio ambiente World Watch. http://www.nodo50.org/worldwatch

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