Teólogos participantes do Seminário sobre os desafios da Igreja no século XXI, realizado em Pindamonhangaba entre os dias 18 e 20 de maio, enfatizaram a necessidade de reformulação na Igreja para que esta possa acompanhar as mudanças vivenciadas pela sociedade hoje. Modificação no trato com as minorias, reformas em sua estrutura hierarquizada e consideração das peculiaridades dos povos latino-americanos e caribenhos foram apontados pelos participantes como fundamentais para um exercício pleno de fé no continente.
No segundo dia do encontro (19), o teólogo brasileiro Agenor Brighenti defendeu a necessidade de um processo constante de reformulação e reflexão dentro da Igreja. "O desafio está em encarnar toda a fé dentro de toda a vida, numa busca comum, porque comum é o destino", avaliou. "As causas da mulher, do índio, do homossexual, dos direitos humanos, dos lavradores são também as causas do Evangelho", defendeu o especialista.
Com base no argumento, Agenor reitera a necessidade de que se chegue a uma "fidelidade renovada". "A Igreja deve renovar suas instituições porque as atuais não respondem mais às exigências do homem e da mulher de hoje", afirma. "É urgente pensar numa estrutura eclesial flexível: ela vive num tempo intermédio, entre o hoje e a parusia, portanto a estrutura provisória e dinâmica lhe é mais própria. A experiência pascal é fundante para sua identidade e ação e deve ser também a base para redefinir sua estrutura", encerra Brighenti.
Em sua apresentação, Paulo Suess, estudioso da realidade indígena e assessor do Conselho Missionário Indígenista no Brasil (CIMI), corroborou com a importância do processo de reflexão para uma renovação da fé no continente. Diante do violento processo de evangelização das populações indígenas durante o Período Colonial, ele alerta que "um cristianismo de asas novas não será dádiva da Providência, mas uma construção a partir de nossa compreensão de fé".
Na avaliação do especialista, é preciso levar em conta as peculiaridades culturais, sociais e históricas dos povos da América Latina e do Caribe para chegar a uma autêntica compreensão de sua fé. "Nosso cristianismo, portanto, deverá ser respeitoso da história e da cultura dos que aqui vivem, não uma filial com sede na Europa: terá o rosto do pobre, do índio, do afro-descendente, do trabalhador. Os crucificados de hoje são a epifania do Cristo vivo, ressuscitado", concluiu.
O diretor do Centro de Formação DEI, teólogo Pablo Richard, sediado em Costa Rica, traçou uma comparação entre dois modelos coexistentes de igreja na contemporaneidade. O primeiro, em sua classificação, apesar de dominante, se mostra em crise irreversível. O segundo, que nasce de dentro do primeiro, ainda enfrenta dificuldades, mas cresce com o vigor da esperança.
De acordo com a dicotomia proposta por Richard, o primeiro tipo, em crise, se caracteriza por sua estrutura hierárquica, "longe do mundo que constrói democracias". Para ele, uma igreja que, por medo, acaba por fechar-se em si mesma. Já a segunda "se mostra inserida na história", consciente do que significa o neoliberalismo na vida das pessoas em termos de sofrimento e morte, marcada pela capacidade autocrítica na busca de novas estruturas. "Essa igreja emergente deve continuar sua própria conversão: ela passou de uma teologia feita por brancos, clérigos e homens, para um novo cristianismo em que nasceram pólos de poderes difusos com mais mulheres, afro-descendentes, homossexuais, índios; com mais leigos, mais jovens", deseja o teólogo.
No último dia do seminário (20), a postura da professora universitária Eva Aparecida de Moraes, foi ao encontro do apresentado anterior. Em sua avaliação, "os desafios para a igreja começam já dentro dela, nos diferentes modelos que coexistem". "O modelo de igreja implantado na América Latina e Caribe inicialmente veio de fora para dentro com o sistema de padroado, antes e, depois, com a romanização. Mas o processo dos últimos cinqüenta anos motivou muita gente para o modelo do Vaticano II que olha mais para fora de si, para o serviço à sociedade", comparou.
Diante das dificuldades vividas no continente e da reformulação vivida pela sociedade hoje, ela defende uma "igreja do diálogo com os diferentes". "Nessa relação a presença do leigo e da mulher deve interessar mais e fazer pensar toda a igreja e qualquer teologia, mas principalmente a teologia da libertação. No grupo de Jesus não só havia muitas mulheres, como atuavam. Leigos, homens e mulheres, incorporados a Cristo e atuantes no mundo, devem criar sua identidade e autonomia que vão se definindo pela sua atuação", argumentou.
O encerramento do seminário coube ao teólogo Paulo Fernando Carneiro de Andrade. Em sua apresentação, ele enfatizou o dever da Igreja para com as mazelas que acometem o mundo. "O compromisso com a construção da justiça não pode ser entendido como uma opção acessória para a igreja", afirmou.
Mesmo respeitando a autonomia do Estado, a Igreja, para ele, se sente na obrigação de sempre se colocar na defesa de homens, mulheres e natureza quando o próprio Estado ou grupos de interesse ameaçam a sociedade como espaço de vida plena. Nestes últimos anos, devido a situações de alcance global, aumenta a repressão à criminalidade, ao ‘terrorismo’, mas a miséria dos povos ainda se impõe como um dos elementos principais que questionam e exigem a presença das igrejas e de seus militantes na defesa da justiça. "A sociedade ‘policialesca’ transforma as leis em meios não para promover, mas para controlar movimentos e grupos organizados. Até ações democráticas de participação acabam sendo enquadradas no âmbito da ilegalidade", criticou. Dessa forma, ele defende que se "intensifique a ação das Pastorais Sociais em vista do empoderamento dos pobres como protagonistas através de ações criativas de leigos e leigas capazes de promover alternativas econômicas, sociais e políticas".