Construído para vitórias rápidas, o Estado israelense agora aposta seu futuro em mobilização contínua, zonas de contenção ampliadas e na promessa impossível de segurança absoluta
Ao longo de décadas, a estratégia de segurança de Israel foi apresentada como um dos sistemas militares mais eficientes do mundo moderno. Cercado por adversários regionais, sem profundidade territorial significativa e dependente de mobilização rápida de reservistas, o país estruturou sua sobrevivência nacional sobre um princípio simples: vencer guerras rapidamente antes que o desgaste econômico, social e político se tornasse insustentável.
Hoje, porém, essa lógica parece ter entrado em colapso.
O que antes era uma doutrina baseada em dissuasão, alerta antecipado e vitórias decisivas se transformou progressivamente em algo muito mais amplo e permanente: uma arquitetura de mobilização contínua, ofensivas preventivas e guerra sem horizonte claro de encerramento.
A consequência é um paradoxo estratégico profundo. Quanto mais Israel busca segurança absoluta através da superioridade militar e da ampliação de operações ofensivas, maior parece ser o risco de perpetuar exatamente o ambiente de instabilidade que pretende eliminar.
Nos últimos anos, essa transformação se tornou visível em escala regional. O conflito iniciado em Gaza rapidamente extrapolou fronteiras e passou a envolver múltiplos teatros simultaneamente: Líbano, Síria, Iraque, Iêmen, Irã e Cisjordânia ocupada. O que inicialmente parecia uma sequência de campanhas militares conectadas assumiu gradualmente a forma de uma guerra aberta e prolongada, marcada por ciclos contínuos de escalada.
A ideia de uma “segurança permanente” passou então a ocupar o centro do pensamento estratégico israelense.
Para críticos internos e observadores internacionais, trata-se de uma mudança histórica. Israel já não estaria apenas tentando impedir ameaças imediatas. O objetivo agora seria criar uma condição de imunidade total contra qualquer risco futuro, mesmo hipotético, através de superioridade militar esmagadora, controle territorial ampliado, zonas de amortecimento e destruição preventiva da infraestrutura associada a grupos considerados hostis.
Essa mudança redefine não apenas a política militar israelense, mas também o próprio funcionamento do Estado.
A origem da doutrina israelense
A base da estratégia de segurança israelense foi formulada ainda nos anos 1950 por David Ben Gurion, primeiro-ministro e principal arquiteto político do Estado israelense. A lógica era moldada por fatores geográficos e demográficos extremamente específicos.
Israel possuía território reduzido, população limitada e poucos recursos estratégicos para suportar guerras longas. Em caso de conflito prolongado, o país corria o risco de sofrer paralisia econômica, desgaste social e colapso político.
Dessa vulnerabilidade nasceu uma doutrina assentada em três pilares centrais:
- dissuasão;
- alerta antecipado;
- vitória decisiva e rápida.
A ideia era simples: impedir ataques através da ameaça de resposta devastadora, detectar perigos antes que amadurecessem e encerrar guerras rapidamente por meio de superioridade operacional.
Durante décadas, essa estratégia moldou as Forças Armadas israelenses e orientou campanhas militares em toda a região.
Posteriormente, o então comandante militar e ministro da Defesa Moshe Dayan expandiu essa visão para uma lógica ainda mais agressiva. Surgiu o que ficou conhecido como “Doutrina Dayan”, baseada na imposição de custos extremos aos inimigos e às populações associadas a eles.
O princípio central era que a violência esmagadora produziria dissuasão duradoura.
Com o tempo, essa abordagem evoluiu para aquilo que passou a ser conhecido como “Doutrina Dahiya”, referência ao subúrbio de Beirute fortemente destruído durante a guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah.
A doutrina defendia o uso de força desproporcional e destruição maciça de infraestrutura civil em áreas ligadas a grupos armados hostis.
Posteriormente, a mesma lógica seria repetidamente aplicada em Gaza.
Organizações de direitos humanos e especialistas em direito internacional passaram a acusar Israel de violar princípios fundamentais do direito humanitário internacional, especialmente no que se refere à proporcionalidade e à proteção de civis.
Mesmo assim, dentro do establishment militar israelense, muitos passaram a considerar essa estratégia não apenas legítima, mas necessária diante da ascensão de atores armados não estatais.
O colapso da dissuasão
Os ataques de 7 de outubro de 2023 produziram um choque profundo na sociedade israelense.
Para grande parte dos analistas militares do país, a operação revelou o fracasso simultâneo dos três pilares históricos da doutrina de segurança nacional.
A dissuasão falhou porque o ataque ocorreu apesar da superioridade militar israelense.
O alerta antecipado falhou porque os serviços de inteligência não conseguiram impedir a ofensiva.
E a ideia de vitória rápida entrou em crise porque o conflito subsequente evoluiu para uma guerra longa, regionalizada e de desgaste contínuo.
Esse episódio desencadeou uma revisão estratégica acelerada dentro das instituições militares e de segurança israelenses.
O principal problema identificado pelos estrategistas era estrutural. O modelo tradicional israelense havia sido desenhado para enfrentar exércitos convencionais estatais. No entanto, os novos adversários regionais operavam de maneira completamente diferente.
Hezbollah, Hamas, Ansarallah no Iêmen e outros grupos armados descentralizados não dependem necessariamente de controle territorial clássico para sobreviver. Sua força está na dispersão, na adaptação e na capacidade de absorver perdas ao longo do tempo.
Em guerras assimétricas, a vitória não depende apenas da superioridade tecnológica ou militar. Resistência prolongada, desgaste psicológico e erosão política tornam-se fatores decisivos.
Foi nesse contexto que surgiu a nova estratégia israelense conhecida como “Prontidão Permanente”.
Apresentada pelo chefe do Estado-Maior israelense Eyal Zamir, a doutrina marca uma mudança importante: Israel abandona parcialmente a lógica de “gestão de conflito” e passa a privilegiar ações preventivas contínuas para neutralizar ameaças antes mesmo que elas se consolidem.
Isso significa ataques mais frequentes, expansão de zonas de segurança, fortalecimento de operações além das fronteiras e disposição para confrontos simultâneos em múltiplos fronts.
Na prática, a guerra deixa de ser exceção e passa a funcionar como condição estrutural do Estado.
O modelo da “Super Esparta”
Críticos da nova estratégia passaram a descrevê-la como uma espécie de modelo “Super Esparta”.
A expressão remete à antiga cidade-Estado grega cuja organização política, econômica e social girava inteiramente em torno da guerra permanente.
Segundo sociólogos israelenses e pesquisadores internacionais, a doutrina atual reflete uma aspiração de alcançar segurança absoluta e permanente contra todas as ameaças possíveis, inclusive futuras e hipotéticas.
Para isso, seriam considerados legítimos:
- uso contínuo de força militar;
- controle territorial ampliado;
- deslocamento populacional;
- destruição preventiva de infraestrutura;
- criação de zonas de contenção militarizadas.
A lógica deixa pouco espaço para compromissos políticos duradouros.
Se um grupo é percebido como ameaça existencial, a prioridade deixa de ser coexistência ou negociação e passa a ser neutralização permanente.
Essa mentalidade vem sendo fortemente criticada dentro e fora de Israel.
Ex-integrantes do aparato de segurança israelense afirmam que a estratégia ignora fatores essenciais como legitimidade internacional, contexto histórico, direito internacional e sustentabilidade política de longo prazo.
Há também críticas mais profundas.
Alguns analistas argumentam que a doutrina cria um ciclo autorrealizável de insegurança. Quanto mais a força militar é usada para eliminar ameaças, mais novos focos de resistência tendem a surgir.
Foi exatamente esse processo que contribuiu para o fortalecimento do Hezbollah após a invasão israelense do Líbano em 1982 e para a consolidação do Hamas ao longo de décadas de ocupação e bloqueio.
O peso da geografia
O dilema estratégico israelense é agravado por um fator permanente: geografia.
Israel possui território reduzido e pouca profundidade estratégica. Em muitos pontos, o país tem largura limitada e alta concentração populacional.
Isso significa que guerras prolongadas afetam rapidamente a vida civil, a economia e o funcionamento do Estado.
Além disso, Israel depende fortemente de reservistas. Grandes mobilizações militares retiram trabalhadores da economia, interrompem setores produtivos e aumentam o custo fiscal do conflito.
Durante décadas, o modelo funcionou porque as guerras eram relativamente curtas.
Agora, porém, o cenário mudou.
Conflitos simultâneos e prolongados criam pressões inéditas sobre a estrutura econômica e social israelense.
O custo financeiro da guerra em Gaza já alcançou centenas de bilhões de shekels. Setores produtivos sofreram desaceleração, investimentos diminuíram e serviços enfrentaram forte pressão.
Mesmo uma sociedade altamente militarizada possui limites de resistência.
A cultura de segurança israelense sempre valorizou resiliência coletiva em tempos de crise. Entretanto, existe diferença profunda entre suportar emergências temporárias e viver sob insegurança permanente.
O risco central talvez não seja colapso imediato, mas desgaste gradual.
Desconfiança institucional, polarização política, fadiga social e erosão da coesão interna tornam-se ameaças estratégicas silenciosas.
Um Estado moldado para emergências temporárias
Existe uma contradição central no modelo atual israelense.
O país foi construído para lidar com emergências intensas, porém temporárias.
A nova doutrina, contudo, parece normalizar uma condição de guerra permanente.
Sob o governo de Benjamin Netanyahu, Israel passou a operar simultaneamente em múltiplos fronts regionais. A liderança política frequentemente reconhece que o Oriente Médio entrou em uma era de conflito prolongado.
Mas um Estado organizado em torno de mobilização emergencial contínua inevitavelmente enfrenta tensões profundas.
Economias modernas precisam de estabilidade para crescer.
Sociedades democráticas dependem de instituições civis fortes e previsibilidade social.
Mobilizações militares permanentes tendem a produzir exatamente o oposto.
Especialistas em política internacional argumentam que Israel vem tentando resolver essa contradição através de quatro mecanismos principais:
- deslocamento populacional;
- zonas de amortecimento militar;
- fragmentação territorial;
- destruição de infraestrutura civil.
A lógica operacional é clara: se grupos armados não podem ser completamente eliminados, então os espaços físicos que sustentam sua existência devem ser tornados inviáveis.
No curto prazo, essa estratégia pode gerar ganhos táticos importantes.
No longo prazo, porém, o resultado pode ser o aprofundamento da instabilidade regional.
Cada ciclo de destruição tende a produzir novos fatores de radicalização, ressentimento e reorganização política.
A armadilha da superioridade militar
Israel continua sendo uma potência militar dominante na região.
Sua capacidade tecnológica, inteligência militar, força aérea e sistemas de defesa permanecem entre os mais sofisticados do mundo.
Entretanto, guerras de desgaste raramente são decididas apenas por superioridade tecnológica.
Grupos armados não estatais operam segundo outra lógica.
Seu objetivo nem sempre é conquistar territórios ou destruir exércitos inimigos em batalhas convencionais.
Muitas vezes, basta sobreviver.
Hezbollah, Hamas, Ansarallah e outros atores regionais estruturaram suas estratégias em torno de resistência prolongada, descentralização e absorção contínua de perdas.
Eles apostam no desgaste político e psicológico do adversário.
Em conflitos assimétricos, a pergunta principal deixa de ser “quem é mais forte?” e passa a ser “quem consegue suportar o custo por mais tempo?”.
Nesse aspecto, Estados modernos possuem vulnerabilidades específicas.
Precisam manter crescimento econômico, estabilidade institucional, legitimidade política e normalidade social.
Grupos insurgentes frequentemente operam com menos restrições estruturais.
Por isso, alguns analistas argumentam que a vantagem decisiva em guerras longas não está necessariamente na força absoluta, mas na capacidade de sustentar resistência contínua.
Isolamento internacional crescente
Outro elemento crítico da doutrina de segurança permanente é o impacto diplomático.
Quanto mais prolongado se torna o conflito regional, maior o desgaste internacional enfrentado por Israel.
Acusações de violações humanitárias, destruição de infraestrutura civil e deslocamentos populacionais passaram a ampliar críticas em organismos multilaterais, universidades, movimentos sociais e até entre aliados históricos.
Ao mesmo tempo, a manutenção de operações militares contínuas exige legitimidade internacional permanente, algo cada vez mais difícil de sustentar.
A percepção de guerra sem fim produz consequências políticas importantes:
- aumento do isolamento diplomático;
- desgaste de alianças estratégicas;
- pressão econômica;
- expansão de sanções e boicotes;
- polarização da opinião pública global.
Mesmo países tradicionalmente alinhados a Israel enfrentam pressões internas crescentes relacionadas ao conflito.
Essa erosão diplomática se soma ao desgaste econômico e social doméstico.
Segurança absoluta como objetivo impossível
O centro do problema talvez esteja na própria ideia de segurança absoluta.
Historicamente, nenhuma potência conseguiu eliminar permanentemente todas as ameaças através de força militar contínua.
Mesmo impérios militarmente dominantes acabaram presos em ciclos de desgaste, insurgência e custos crescentes.
A busca por segurança total frequentemente produz exatamente o efeito contrário: expansão contínua do conflito.
Quanto maior o esforço para neutralizar todas as ameaças possíveis, mais ampla tende a se tornar a definição de inimigo.
Nesse processo, a guerra deixa de ser instrumento político limitado e passa a funcionar como estrutura permanente de governança.
Israel parece caminhar perigosamente nessa direção.
A doutrina da segurança permanente transforma prevenção em estado contínuo de exceção.
Mobilização deixa de ser episódica e passa a integrar o cotidiano nacional.
Fronteiras tornam-se zonas militares permanentes.
Operações preventivas tornam-se regra.
E a própria noção de paz passa a parecer distante ou até irrealista.
A erosão silenciosa da sociedade
Guerras longas não desgastam apenas exércitos.
Elas transformam sociedades inteiras.
O aumento constante da militarização tende a alterar relações políticas, prioridades econômicas e valores sociais.
Em contextos de conflito permanente, instituições democráticas frequentemente sofrem erosão gradual.
Questões de segurança passam a dominar o debate público.
A polarização interna se intensifica.
Governos ganham justificativa para ampliar poderes excepcionais.
Ao mesmo tempo, a sociedade civil enfrenta fadiga crescente.
Reservistas permanecem mobilizados por longos períodos.
Famílias convivem continuamente com tensão psicológica.
Empresas enfrentam instabilidade econômica.
Setores inteiros da economia passam a operar sob incerteza permanente.
A longo prazo, isso produz transformação estrutural da vida nacional.
O risco não é apenas militar.
É civilizacional.
A questão central do século XXI israelense
A grande pergunta estratégica deixou de ser se Israel consegue vencer guerras militarmente.
A superioridade operacional israelense permanece evidente.
A verdadeira questão agora é outra:
um Estado construído para vitórias rápidas consegue sustentar indefinidamente uma doutrina de guerra permanente sem esgotar os próprios fundamentos de sua segurança?
Essa pergunta envolve dimensões militares, econômicas, sociais, diplomáticas e psicológicas.
A nova doutrina oferece ganhos táticos imediatos.
Mas o custo estratégico de longo prazo permanece profundamente incerto.
Se a guerra se torna condição permanente do Estado, então segurança absoluta talvez deixe de ser objetivo alcançável e passe a funcionar como horizonte infinito de mobilização contínua.
Nesse cenário, Israel corre o risco de se tornar simultaneamente mais poderoso militarmente e mais vulnerável politicamente.
A contradição é brutal.
Quanto mais o Estado busca eliminar definitivamente a insegurança através da força permanente, maior pode ser a probabilidade de transformar a própria insegurança em condição estrutural irreversível.

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