Teerã demonstrou que a supremacia militar já não garante vitória política
A guerra travada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã deverá ocupar um lugar de destaque nos futuros livros de relações internacionais. Não porque tenha revolucionado completamente os conceitos clássicos de poder e influência entre Estados, mas porque evidenciou uma transformação profunda na forma como o poder é exercido e, sobretudo, nos limites crescentes de sua eficácia.
Durante grande parte da era contemporânea, a superioridade militar foi considerada o principal instrumento para moldar a ordem internacional. Na lógica predominante desde o fim da Segunda Guerra Mundial, países dotados de recursos militares esmagadores podiam impor custos insustentáveis aos adversários e, assim, alcançar objetivos políticos relativamente previsíveis. O caso iraniano, entretanto, sugere que essa relação entre força e resultado está se tornando cada vez menos direta.
O equilíbrio de poder continua sendo um elemento fundamental das relações internacionais. Exércitos fortes, arsenais sofisticados e superioridade tecnológica ainda importam. Contudo, os efeitos do emprego da força tornaram-se mais incertos. A coerção militar já não produz necessariamente os resultados políticos esperados. O mesmo vale para sanções econômicas, bloqueios comerciais e outras formas de pressão exercidas pelas grandes potências.
Quando se removem as narrativas patrióticas e as declarações destinadas ao consumo doméstico, o quadro geral torna-se relativamente simples. Uma coalizão composta pelos Estados Unidos, Israel e importantes monarquias árabes do Golfo, claramente superior em termos militares, econômicos e tecnológicos, não conseguiu alcançar os objetivos centrais que motivaram sua campanha contra um adversário consideravelmente mais fraco: a República Islâmica do Irã e seus aliados regionais.
A expectativa inicial era de uma vitória rápida e decisiva. Os planejadores da campanha acreditavam que o regime iraniano havia sido enfraquecido por anos de sanções, isolamento diplomático, dificuldades econômicas e divisões internas. Havia a percepção de que um golpe suficientemente intenso poderia desorganizar a liderança iraniana e forçar Teerã a aceitar condições impostas pelos vencedores.
Essa confiança foi expressa de forma clara quando o então presidente Donald Trump exigiu a rendição incondicional do Irã. A mensagem refletia uma convicção amplamente compartilhada entre os defensores da ofensiva: diante de uma demonstração esmagadora de força, a resistência iraniana entraria em colapso.
O que ocorreu foi exatamente o contrário.
Apesar dos danos significativos sofridos nos primeiros ataques, o sistema político iraniano não desmoronou. A estrutura estatal sobreviveu ao choque inicial, reorganizou suas capacidades e mobilizou recursos para sustentar a resistência. Mais importante ainda, o país abandonou várias das restrições estratégicas que anteriormente limitavam suas ações.
Foi nesse momento que se tornou visível uma das características centrais dos conflitos do século XXI: a capacidade de atores mais fracos compensarem desvantagens militares por meio de respostas assimétricas.
O Irã jamais teve condições de competir com os Estados Unidos ou com Israel em termos convencionais. Sua força aérea é inferior, sua capacidade naval é limitada quando comparada à das grandes potências e sua infraestrutura militar não possui o mesmo nível tecnológico dos adversários. No entanto, a liderança iraniana compreendeu que não precisava igualar a força inimiga para produzir efeitos estratégicos relevantes.
Em vez disso, utilizou instrumentos capazes de explorar vulnerabilidades específicas da coalizão adversária.
Um dos movimentos mais significativos foi a tentativa de interromper o tráfego através do Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais importantes do planeta. Durante décadas, autoridades iranianas ameaçaram recorrer a essa medida em caso de conflito existencial. Entretanto, jamais haviam avançado tão longe na materialização dessa ameaça.
O estreito possui importância extraordinária para a economia global. Uma parcela substancial das exportações mundiais de petróleo e gás natural passa por suas águas. Qualquer interrupção prolongada gera impacto imediato nos mercados internacionais de energia, afeta cadeias produtivas e amplia a percepção de risco em escala global.
Ao colocar essa rota estratégica sob ameaça, Teerã demonstrou sua capacidade de produzir consequências muito além do campo de batalha.
Paralelamente, o Irã ampliou o alcance de suas operações contra interesses americanos e contra ativos pertencentes a parceiros fundamentais de Washington na região. O objetivo não era derrotar militarmente os Estados Unidos, algo claramente impossível, mas aumentar os custos políticos, econômicos e estratégicos da campanha.
Outro elemento decisivo foi a utilização intensiva de grandes estoques de mísseis, drones e outros sistemas de ataque. Embora inferiores aos arsenais americanos e israelenses, essas capacidades mostraram-se suficientes para provocar danos relevantes.
Durante décadas, muitas sociedades acostumadas à superioridade militar operaram sob a expectativa de que os conflitos modernos poderiam ser conduzidos com custos internos relativamente baixos. O conflito com o Irã colocou essa premissa em xeque.
Pela primeira vez em muitos anos, populações acostumadas a desempenhar o papel de observadoras da guerra passaram a sentir diretamente algumas de suas consequências.
Talvez o fator mais importante tenha sido a diferença de tolerância ao sofrimento entre os lados envolvidos.
Historicamente, países submetidos a décadas de sanções, crises econômicas, ameaças externas e instabilidade desenvolvem níveis de resiliência que muitas vezes surpreendem observadores estrangeiros. O Irã demonstrou possuir uma capacidade de absorver danos significativamente maior do que muitos analistas previam.
Essa característica não significa invulnerabilidade. Pelo contrário, o país sofreu perdas humanas, econômicas e militares expressivas. Entretanto, sua liderança calculou que poderia suportar esses custos por mais tempo do que seus adversários estariam dispostos a tolerar os riscos decorrentes de uma escalada contínua.
O resultado final fala por si.
Nenhuma das principais questões que motivaram a guerra foi efetivamente resolvida.
O programa nuclear iraniano permanece como tema de disputa. A influência regional de Teerã continua existindo. As rivalidades estratégicas entre Irã e Israel não desapareceram. As preocupações de segurança das monarquias do Golfo permanecem presentes.
Em vez de uma solução definitiva, todas essas questões retornaram à mesa de negociações.
Essa realidade possui implicações profundas. Após semanas de confrontos intensos que elevaram as tensões globais, afetaram mercados internacionais e despertaram temores de uma guerra regional de grandes proporções, o sistema retornou a uma situação que, em muitos aspectos, se aproxima daquela existente antes do início das hostilidades.
Em termos estratégicos, o conflito produziu enormes custos sem gerar uma transformação proporcional da realidade política.
Essa constatação reforça uma tendência observada em diversos conflitos recentes.
Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais difícil converter superioridade militar em resultados políticos duradouros. O Afeganistão, o Iraque, a Síria, o Iêmen e outros cenários demonstraram que derrotar militarmente um adversário não significa necessariamente alcançar os objetivos políticos desejados.
A capacidade de resistência dos atores mais fracos aumentou. Ao mesmo tempo, a disposição das grandes potências para absorver custos prolongados diminuiu.
Em sociedades altamente conectadas, democráticas e economicamente integradas, os efeitos políticos das guerras são sentidos de maneira rápida. Custos econômicos, impactos eleitorais, desgaste da opinião pública e riscos à estabilidade interna tornam-se fatores cada vez mais relevantes.
Consequentemente, governos poderosos enfrentam limitações que não existiam da mesma forma em períodos anteriores.
No caso específico dos Estados Unidos, o conflito também revelou mudanças importantes em sua postura estratégica global.
Donald Trump deixou claro que não deseja envolver o país em mais uma guerra de grande escala no Oriente Médio. Essa posição não deriva necessariamente de princípios pacifistas, mas de uma avaliação pragmática sobre custos e benefícios.
Uma nova escalada provavelmente exigiria investimentos financeiros enormes, mobilização militar prolongada e riscos políticos consideráveis, sem garantia de sucesso.
Sob esse aspecto, a contenção americana pode ser interpretada como reconhecimento dos limites do poder.
Durante décadas, aliados dos Estados Unidos assumiram que Washington estaria disposto a assumir os custos finais necessários para preservar a ordem regional. O conflito contra o Irã introduziu dúvidas sobre essa premissa.
A mensagem transmitida ao restante do mundo é clara: os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar do planeta, mas já não demonstram a mesma disposição para empregar esse poder de maneira ilimitada.
Seus parceiros ainda precisam levar em consideração a força americana. No entanto, não podem mais presumir automaticamente que Washington assumirá todos os riscos em nome de interesses compartilhados.
Embora essa dinâmica seja particularmente visível no Oriente Médio, ela reflete um fenômeno global.
O sistema internacional atravessa um período de transição no qual a concentração de poder continua elevada, mas sua capacidade de produzir resultados políticos diminui gradualmente.
A ascensão de novas potências, a proliferação de tecnologias militares relativamente acessíveis e o aumento da interdependência econômica contribuem para tornar os conflitos mais complexos e menos previsíveis.
Nesse contexto, o Oriente Médio ocupa posição central.
Grande parte da arquitetura regional construída ao longo dos últimos anos foi baseada em um processo gradual de aproximação entre Israel e diversos países árabes, especialmente as monarquias ricas do Golfo.
Essa estratégia tinha como pilares a cooperação econômica, os investimentos cruzados, as parcerias tecnológicas e a formação de um bloco regional capaz de isolar o Irã politicamente.
Os acontecimentos de 2023 representaram um duro golpe para esse projeto.
O ataque do Hamas contra Israel e a subsequente campanha militar israelense em Gaza alteraram significativamente o ambiente político regional. Ainda assim, apesar das dificuldades, muitos analistas acreditavam que o processo de integração regional poderia sobreviver.
A guerra contra o Irã deveria representar o capítulo decisivo dessa estratégia.
A expectativa era que a eliminação ou neutralização definitiva da influência iraniana permitisse consolidar uma nova ordem regional sob predominância militar israelense e proteção estratégica americana.
Esse objetivo, entretanto, não foi alcançado.
Ao permanecer como ator relevante após o conflito, o Irã demonstrou que continua sendo parte incontornável da equação regional.
Isso não significa que Teerã saiu ileso. Os danos sofridos foram consideráveis e podem produzir consequências importantes nos próximos anos. Contudo, sobreviver já representou uma forma de sucesso estratégico.
Em muitos conflitos assimétricos, a vitória não consiste em derrotar completamente o adversário, mas simplesmente em impedir que ele alcance seus objetivos.
Sob essa lógica, a resistência iraniana alterou os cálculos estratégicos da região.
As próximas tentativas de modificar o equilíbrio de poder por meio da força provavelmente ocorrerão em condições menos favoráveis para Estados Unidos e Israel. Ao mesmo tempo, o Irã poderá buscar explorar politicamente a percepção de que resistiu com sucesso a uma coalizão muito mais poderosa.
Grande parte do futuro dependerá das escolhas feitas pela nova geração de lideranças iranianas, muitas delas fortalecidas precisamente pelas circunstâncias criadas pelo conflito.
Persistem riscos significativos de novas crises, confrontos indiretos e escaladas militares. Nenhum acordo abrangente foi alcançado. Nenhuma estrutura regional estável emergiu. As causas fundamentais das tensões permanecem presentes.
Ainda assim, uma conclusão já parece inevitável.
A era em que a superioridade militar garantia automaticamente resultados políticos favoráveis está chegando ao fim.
As guerras contemporâneas são marcadas por redes complexas de alianças, pressões econômicas, disputas informacionais, resistência social e capacidades assimétricas que permitem aos atores mais fracos prolongar conflitos e elevar seus custos.
Nesse ambiente, a força continua sendo importante, mas deixou de ser suficiente.
Os Estados Unidos e Israel continuam possuindo uma vantagem militar esmagadora em relação ao Irã. Nenhum observador sério questiona essa realidade. O que o conflito demonstrou, porém, é que a posse de poder militar extraordinário já não assegura, por si só, a conquista dos objetivos políticos desejados.
O Irã não venceu a guerra no sentido tradicional da palavra. Contudo, ao impedir que seus adversários alcançassem suas metas estratégicas centrais, mostrou que o conceito de vitória está mudando.
E talvez essa seja a principal lição deste conflito para o século XXI: em um mundo cada vez mais complexo, a capacidade de resistir pode ser tão importante quanto a capacidade de atacar.

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