Uma pesquisa abrangente do Pew Research Center revela uma mudança sísmica na percepção mundial, marcando a primeira vez em quase duas décadas que Pequim e seu presidente, Xi Jinping, são vistos de forma mais positiva do que Washington e Donald Trump.
O cenário geopolítico global passou por uma transformação profunda e mensurável nos últimos anos. Segundo dados recentes divulgados pelo prestigiado Pew Research Center, a República Popular da China e seu líder, Xi Jinping, conquistaram uma vantagem significativa em termos de imagem pública internacional em relação aos Estados Unidos e ao presidente americano, Donald Trump. Este marco histórico representa a primeira ocasião em quase vinte anos de monitoramento contínuo da opinião pública global em que Pequim supera Washington em favorabilidade, sinalizando não apenas uma mudança nas alianças diplomáticas, mas uma reconfiguração fundamental de como as nações percebem liderança, estabilidade e parceria internacional.
Uma Mudança de Paradigma nos Números
A abrangência da pesquisa é impressionante, cobrindo seis continentes e incluindo entrevistas com mais de 42.000 participantes entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026. Os resultados pintam um quadro claro de deslocamento de influência. Em 25 dos 36 países e territórios pesquisados, a China desfruta de uma imagem mais positiva do que os Estados Unidos. Esta tendência é particularmente pronunciada nas regiões da Ásia-Pacífico e do Oriente Médio, áreas tradicionalmente consideradas esferas de influência americana, mas que agora demonstram uma abertura crescente para a liderança chinesa.
Os números brutos revelam a magnitude desta inversão. Entre os 20 países para os quais existem dados comparáveis desde 2023, 46% dos respondentes atualmente veem a China de forma favorável, contra apenas 36% para os Estados Unidos. Para contextualizar a rapidez desta mudança, basta olhar para trás, para o ano de 2023, quando os papéis estavam invertidos: naquela época, 58% favoreciam os EUA, enquanto apenas 32% tinham uma visão positiva da China. Esta oscilação de mais de vinte pontos percentuais em apenas três anos ilustra a volatilidade da reputação internacional das superpotências e a sensibilidade da opinião pública às ações governamentais recentes.
O Fator Liderança: Xi Jinping versus Donald Trump
Além da percepção institucional dos países, a pesquisa destacou a confiança depositada nos líderes individuais. Em 22 dos países analisados, os entrevistados expressaram maior confiança no presidente chinês, Xi Jinping, do que no presidente americano, Donald Trump. É importante notar, contudo, que a confiança absoluta em ambos os líderes permaneceu geralmente baixa em muitos contextos, refletindo um ceticismo global generalizado em relação às figuras políticas de alto perfil. No entanto, a margem relativa favorece consistentemente a abordagem de Pequim.
Laura Silver, diretora associada do Pew Research Center e coautora do relatório, destacou a singularidade deste momento histórico. Ela observou que algumas das visões atuais sobre os Estados Unidos estão em níveis historicamente baixos ou próximos disso. Segundo Silver, a China se beneficiou significativamente de ser percebida como um parceiro mais confiável. Esta percepção foi impulsionada pela recuperação pós-pandêmica do país, que restaurou a confiança na capacidade administrativa e econômica de Pequim em entregar resultados concretos para sua população e para seus parceiros comerciais.
Em contraste, a queda na estima pelos Estados Unidos está diretamente correlacionada com eventos geopolíticos recentes e controversos. Silver apontou uma relação clara entre o início da guerra liderada pelos EUA contra o Irã e a deterioração da imagem americana. A percepção global é que Washington deixou de contribuir para a paz e a estabilidade internacional, gerando uma crise de confiança na liderança de Donald Trump. A ação militar unilateral foi vista por muitos aliados tradicionais não como uma medida de segurança necessária, mas como uma fonte de instabilidade regional que ameaça o equilíbrio global.
O Desencanto dos Aliados Tradicionais
Talvez o aspecto mais revelador da pesquisa seja a mudança drástica de atitude entre os aliados mais próximos dos Estados Unidos. Nações que historicamente alinharam suas políticas externas com Washington registraram as quedas mais acentuadas na favorabilidade americana.
O caso do Canadá é emblemático. A visão favorável dos canadenses sobre os Estados Unidos despencou de 57% em 2023 para meros 33% em 2026. Simultaneamente, a imagem da China no Canadá subiu de 14% para 44%. Este declínio abrupto não ocorreu no vácuo; foi uma resposta direta às políticas agressivas da administração Trump. As tarifas impostas sobre produtos canadenses feriram a economia local, mas foram as declarações repetidas de Trump sugerindo que o Canadá deveria se tornar o "51º estado" americano que causaram indignação generalizada em Ottawa e na sociedade civil canadense. Tais comentários, vistos como uma violação da soberania nacional e uma falta de respeito diplomático básico, aceleraram o afastamento emocional e político entre os dois vizinhos.
Na Europa, a tendência foi semelhante. Grandes potências como França, Alemanha, Itália e Espanha também registraram mudanças significativas em direção à China. As relações transatlânticas deterioraram-se durante o segundo mandato de Trump, marcado por disputas tarifárias intensas, pressão constante sobre os aliados da OTAN para aumentar seus gastos de defesa e críticas severas à recusa da Europa em apoiar a guerra dos EUA contra o Irã. Além disso, os repetidos apelos de Trump para que a Dinamarca vendesse a Groenlândia aos Estados Unidos foram interpretados como uma mentalidade transacional que ignorava a integridade territorial e as sensibilidades históricas europeias.
América Latina e o Novo Equilíbrio
A pesquisa também identificou uma ligeira vantagem da China sobre os Estados Unidos na América Latina. Esta região, tradicionalmente considerada o quintal dos EUA, está reavaliando suas parcerias estratégicas. A mudança de postura latina segue uma série de ações unilaterais e ameaçadoras por parte de Washington. A intervenção efetiva de Trump na Venezuela, combinada com ameaças de ação militar contra México, Colômbia e Cuba, criou um clima de insegurança e ressentimento.
Adicionalmente, a ordem do Pentágono para visar embarcações no Caribe sob a justificativa de operações antidrogas foi percebida por muitos governos latino-americanos como uma militarização excessiva e uma violação da soberania regional. Em contraste, a abordagem chinesa, focada em investimentos em infraestrutura, comércio bilateral sem condições políticas rígidas e cooperação técnica, tem sido recebida com maior entusiasmo. A China conseguiu posicionar-se não como uma potência hegemônica que dita regras, mas como um parceiro de desenvolvimento que respeita a autonomia nacional.
Onde os Estados Unidos Ainda Mantêm Vantagem
Apesar da tendência geral desfavorável, os Estados Unidos ainda mantêm liderança em alguns nichos específicos. A pesquisa mostrou que Washington lidera em apenas seis nações: Polônia, Filipinas, Coreia do Sul, Índia, Japão e Israel. Estes países compartilham preocupações de segurança comuns com os EUA ou dependem fortemente da proteção militar americana frente a ameaças regionais percebidas.
Além disso, houve cinco países onde as opiniões foram praticamente equilibradas, indicando que a disputa pela influência global está longe de ser decidida em todas as frentes. A única categoria substantiva em que os Estados Unidos superaram consistentemente a China foi no respeito às liberdades pessoais. No entanto, mesmo nesta área, a lacuna era estreita, sugerindo que a narrativa americana sobre superioridade moral e democrática está perdendo força diante das críticas sobre hipocrisia e inconsistência nas políticas externas.
Implicações para o Futuro das Relações Internacionais
Os resultados desta pesquisa têm implicações profundas para o futuro da ordem internacional. A ascensão da China na opinião pública global não é apenas uma vitória de relações públicas; é um reflexo de uma mudança estrutural no poder suave. Enquanto os Estados Unidos parecem estar cada vez mais isolados devido a políticas unilaterais e retórica confrontacional, a China capitaliza sua imagem de estabilidade, previsibilidade e foco no desenvolvimento econômico.
A Embaixada Chinesa em Washington comentou os achados, afirmando que eles demonstram que as conquistas de governança e o progresso de desenvolvimento da China são amplamente reconhecidos. Por outro lado, a Casa Branca não fez comentários imediatos, o que pode indicar uma subestimação da gravidade da situação ou uma estratégia de silêncio diante de dados desfavoráveis.
Para analistas políticos, este momento marca o fim simbólico da primacia americana incontestada. A capacidade dos EUA de moldar a narrativa global e de contar com o apoio automático de seus aliados está comprometida. A guerra contra o Irã serviu como um ponto de ruptura, expondo as fissuras na aliança ocidental e oferecendo à China uma oportunidade de se apresentar como uma alternativa viável e menos beligerante.
À medida que avançamos para o final da década de 2020, a competição entre Washington e Pequim não será mais definida apenas por poderio militar ou volume comercial, mas pela capacidade de cada nação de inspirar confiança e oferecer uma visão de futuro atraente para o resto do mundo. Os dados atuais sugerem que, neste aspecto crucial, a balança pendeu decisivamente para o lado de Pequim, deixando os Estados Unidos diante do desafio urgente de reconstruir sua credibilidade e reparar relações danificadas por anos de política externa agressiva e imprevisível.
Esta virada histórica exige uma reflexão profunda nos círculos de poder americanos. Sem uma mudança significativa de curso, a tendência de erosão da influência global dos EUA pode se tornar irreversível, consolidando um mundo multipolar onde a liderança chinesa é não apenas aceita, mas preferida pela maioria das nações.

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