Iêmen avalia cobrar “taxa de trânsito” de navios que passam pelo estreito de Bab al-Mandab

 


Teerã e Sanaa já afirmaram publicamente que uma nova escalada entre Estados Unidos e Israel poderia levar ao fechamento do estreito estratégico

As Forças Armadas do Iêmen, lideradas pelo movimento de resistência Ansarallah, avaliam a possibilidade de cobrar taxas de embarcações comerciais que atravessem o sul do Mar Vermelho, segundo fontes regionais citadas pela Reuters nesta quarta-feira, 29 de julho.

A informação surge uma semana depois de as forças iemenitas anunciarem um bloqueio à navegação saudita, em resposta a mais de uma década de guerra e cerco impostos ao Iêmen pelo reino.

De acordo com as fontes, o Ansarallah estuda a possibilidade de impor taxas à maior parte do tráfego marítimo que atravessa o estreito de Bab al-Mandab, uma das principais passagens estratégicas do comércio internacional.



Ainda não foi estabelecido um prazo para a implementação da medida.

Segundo a Reuters, uma delegação do Ansarallah esteve no Irã para participar do funeral do então líder supremo iraniano Ali Khamenei e, durante a visita, discutiu com autoridades iranianas a possibilidade de cobrar taxas pelo trânsito de embarcações em Bab al-Mandab.

A proposta teria como objetivos normalizar a cobrança de tarifas em vias marítimas internacionais e aumentar a pressão sobre os Estados Unidos. Navios chineses, segundo o relato, seriam isentos das cobranças.


Resistência internacional


Diplomatas ocidentais citados no relatório afirmam que uma eventual tentativa das forças iemenitas de estabelecer taxas enfrentaria forte oposição das monarquias do Golfo e de países da União Europeia.

Ao mesmo tempo, os diplomatas avaliam que as forças navais internacionais estão sobrecarregadas e com capacidade limitada para garantir a proteção do transporte marítimo comercial.

Operações navais europeias de grande porte, assim como a tentativa da antiga administração norte-americana de formar uma coalizão marítima contra o Ansarallah após o início da guerra em Gaza, não conseguiram alcançar seus objetivos.

Uma campanha de ataques dos Estados Unidos contra o Ansarallah durante o verão de 2025, sob a administração de Donald Trump, também teria fracassado em alcançar seus objetivos.

As forças navais internacionais atualmente não conseguem oferecer proteção suficiente à navegação mercante, e há pouco apetite político para mudar essa situação”, afirmaram os diplomatas ocidentais citados no relatório.

Um integrante do governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita afirmou à Reuters que o Ansarallah e as forças de Sanaa tentarão ampliar seu controle sobre o Mar Vermelho e cobrar embarcações que atravessem a região.

Bab al-Mandab, um ponto estratégico


As forças de Sanaa já exercem influência significativa sobre o Mar Vermelho e, nos últimos anos, têm ameaçado repetidamente embarcações israelenses e sauditas, além de navios de guerra dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Estima-se que cerca de 10% a 12% da energia mundial transite normalmente pelo estreito de Bab al-Mandab.

A passagem conecta o oceano Índico ao Mediterrâneo por meio do Mar Vermelho e do Canal de Suez, tornando-se um dos principais corredores marítimos para o comércio internacional e o transporte de energia.

Nos últimos meses, após o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, tanto Sanaa quanto a República Islâmica do Irã afirmaram que Bab al-Mandab poderia ser fechado a qualquer momento caso Washington e Tel Aviv promovam uma nova escalada do conflito.

Navios sauditas sob pressão


Petroleiros sauditas já foram atingidos diversas vezes nos últimos dias, depois que o Ansarallah anunciou, em 20 de julho, um bloqueio naval contra Riad em resposta aos ataques aéreos sauditas contra o Iêmen.

As forças de Sanaa também atacaram um aeroporto saudita e uma importante instalação energética da Aramco. Segundo o relato, a instalação foi obrigada a interromper suas operações em consequência dos ataques iemenitas.

A situação ocorre paralelamente à crise no estreito de Ormuz, por onde normalmente passa pelo menos 20% da energia comercializada no mundo. A passagem permanece fechada pelas forças iranianas após a escalada provocada por Washington, na sequência da assinatura de um memorando de entendimento em Islamabad, em junho.

As ações dos Estados Unidos desencadearam uma série de ataques entre Washington e Teerã neste mês.

Embora os Estados Unidos tenham suspendido há poucos dias uma campanha de duas semanas de intensos ataques contra o Irã, mísseis iranianos atingiram, na segunda-feira, instalações militares norte-americanas na Jordânia.

O tráfego pelo estreito de Ormuz permanece severamente limitado pelas forças iranianas.

Dados do sistema AIS, utilizado para monitorar o deslocamento de embarcações em tempo real, confirmam uma forte redução das operações no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz, segundo a plataforma de monitoramento marítimo ShipFinder.

O número total de embarcações operando no Golfo Pérsico teria caído aproximadamente 15%, de 4.326 em 28 de junho para 3.675 em 28 de julho. Em comparação com o pico registrado em 4 de julho, de 4.862 embarcações, a queda chega a 24%.

Os trânsitos diários pelo estreito de Ormuz também despencaram. De mais de 60 embarcações no início de julho, o movimento chegou a apenas oito navios em 17 de julho, segundo os dados citados no relatório.

A possível adoção de taxas em Bab al-Mandab, somada às restrições já existentes em Ormuz, amplia a pressão sobre dois dos principais corredores marítimos de energia do planeta, elevando os riscos para o comércio internacional e para o transporte global de petróleo e gás.


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