Em uma entrevista reveladora concedida ao professor Glenn Diesen, o acadêmico iraniano Seyed Mohammad Marandi traçou um cenário sombrio para o futuro do Oriente Médio e das relações internacionais. Professor da Universidade de Teerã e ex-assessor da equipe de negociação nuclear do Irã, Marandi ofereceu uma perspectiva única sobre os desdobramentos geopolíticos atuais, alertando para os riscos catastróficos de uma escalada militar que poderia desencadear um colapso econômico global sem precedentes.
O Desespero de Netanyahu e a Estratégia de Escalada
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu encontra-se em uma posição cada vez mais precária, segundo a análise de Marandi. Apesar do reconhecimento oficial das Forças de Defesa de Israel de que estão sobrecarregadas após meses de conflitos intensos, Netanyahu mantém uma retórica belicista intransigente. Em seu recente discurso na Organização das Nações Unidas, o líder israelense declarou que lutaria "até o fim" contra o que classificou como "bárbaros", em nome da civilização ocidental.
Marandi identifica nessa postura não apenas determinação estratégica, mas principalmente desespero político. Os últimos três anos foram marcados por uma série de crises judiciais que ameaçaram levar Netanyahu à prisão. Para permanecer no poder, o primeiro-ministro adotou políticas extremistas que, embora tenham funcionado para sua sobrevivência política pessoal, provaram-se devastadoras para o regime israelense como instituição.
O analista iraniano destaca que Netanyahu conseguiu manter-se no poder por mais tempo do que qualquer outro líder na história do regime israelense, demonstrando habilidades manipulativas excepcionais nos corredores do poder. No entanto, essa estratégia de permanência através da escalada constante gerou consequências irreversíveis: o mundo voltou-se contra Israel de forma decisiva.
A Mudança na Percepção Global sobre o Conflito Palestino
Um dos pontos mais significativos abordados por Marandi refere-se à transformação radical na percepção internacional sobre as ações israelenses. Durante anos, defender a causa palestina era uma luta árdua, exigindo esforços constantes para convencer indivíduos em conferências, encontros acadêmicos e entre estudantes universitários sobre as injustiças cometidas pelo regime israelense contra o povo palestino.
Atualmente, essa realidade mudou drasticamente. Segundo Marandi, a clareza sobre as atrocidades israelenses tornou-se óbvia para pessoas em todo o mundo, incluindo no próprio Irã e em diversos outros países. O professor argumenta que Netanyahu e seus aliados tornaram-se a força mais destrutiva já existente para o próprio regime israelense, alienando gradualmente a opinião pública global.
Essa mudança de paradigma representa um desafio existencial para Israel, que historicamente dependeu do apoio diplomático e moral da comunidade internacional para legitimar suas ações. A perda desse capital simbólico coloca o país em uma posição de isolamento crescente, com implicações profundas para sua segurança a longo prazo.
O Triângulo Perigoso: Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita
Marandi identifica a formação de um triângulo estratégico composto pelos Estados Unidos, Israel e os regimes do Golfo Pérsico, particularmente a Arábia Saudita. Essa aliança opera de maneira coordenada contra o Irã, com os países do Golfo fornecendo combustível praticamente gratuito para os jatos israelenses que bombardeiam território iraniano. Esse modelo de cooperação revela as interdependências complexas que sustentam a política regional.
No entanto, essa estrutura apresenta vulnerabilidades críticas. Se Netanyahu decidir atacar a infraestrutura crítica iraniana, incluindo campos de energia e a ilha de Karg, o Irã provavelmente retaliará destruindo instalações petrolíferas e de gás do outro lado do Golfo Pérsico. Essas infraestruturas são significativamente mais sofisticadas e valiosas do que as iranianas, e sua destruição provocaria imediatamente um colapso econômico global.
O especialista enfatiza que não se trataria de uma queda lenta e gradual da economia mundial, mas sim de um despencamento abrupto. Milhões de pessoas perderiam seus empregos instantaneamente, e a crise de refugiados e imigração, já considerada problemática atualmente, se transformaria em uma catástrofe humanitária de proporções inimagináveis. Regimes dependentes exclusivamente de petróleo e gás entrariam em colapso, gerando deslocamentos massivos de populações da África para outras regiões.
As Eleições Americanas como Fator Determinante
O calendário eleitoral americano desempenha papel crucial na equação geopolítica atual. As eleições israelenses estão marcadas para 27 de outubro, enquanto as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos ocorrerão em 3 de novembro. Essa proximidade temporal cria incentivos perversos para escalada controlada ou contenção estratégica.
Donald Trump demonstra preocupação evidente com as eleições de meio de mandato, apesar de afirmar publicamente o contrário. Sua estratégia parece ser manter a situação relativamente calma até as eleições, evitando derrotas políticas significativas, para depois escalar o conflito posteriormente. Para Netanyahu, contudo, esse cronograma representa uma janela de oportunidade estreita: se ele iniciar uma guerra antes das eleições americanas, poderá arrastar os Estados Unidos para o conflito, garantindo o apoio militar necessário para operações bem-sucedidas contra o Irã.
Marandi lembra que, quando a guerra atual começou, o secretário de Estado americano admitiu que os Estados Unidos entraram no conflito porque sabiam que os israelenses atacariam de qualquer forma. Essa declaração revela a capacidade do regime israelense de forçar a mão americana, utilizando sua influência nos corredores do poder em Washington, mesmo quando a sociedade americana em geral rejeita e despreza as políticas israelenses.
A Imprudência de Mohammed bin Salman
A posição da Arábia Saudita no cenário atual gera perplexidade. Mohammed bin Salman (MBS) aparenta estar apostando tudo em uma estratégia arriscada, apesar dos sinais claros de que o conflito no Yemen não está favorecendo Riad. Marandi questiona a sabedoria das decisões do príncipe herdeiro saudita, citando uma série de episódios controversos que marcaram seu reinado.
O sequestro e agressão ao então primeiro-ministro libanês Saad Hariri, o assassinato brutal do jornalista Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, a guerra devastadora no Yemen caracterizada como genocídio, o cerco ao Qatar e a extorsão de membros da família real durante o incidente do Ritz constituem um padrão de comportamento imprudente e autoritário.
Marandi estabelece paralelos interessantes entre MBS e Trump, sugerindo que ambos se cercaram de bajuladores que concordam com todas as suas decisões, independentemente de sua inteligência ou competência. Essa dinâmica de echo chamber contribui para tomadas de decisão temerárias que ignoram consequências estratégicas de longo prazo.
A Arábia Saudita enfrenta dificuldades crescentes contra os houthis do Yemen, grupo motivado ideologicamente e visto positivamente em toda a região como defensores do povo palestino. Enquanto os ataques sauditas causam principalmente mortes de civis e destruição de mercados, os contra-ataques yemenitas atingem alvos estratégicos com impacto enorme. Se essa dinâmica persistir por algumas semanas adicionais, a Arábia Saudita deixará de ser o país exportador de petróleo que conhecemos desde décadas passadas.
A Proposta Iraniana de Desescalada Ignorada
Diante desse cenário volátil, o Irã apresentou uma proposta concreta de desescalada, oferecendo um roteiro para reduzir tensões regionais. Surpreendentemente, Trump não aproveitou essa oportunidade, mesmo quando seus aliados e representantes na região enfrentam risco iminente de colapso.
Marandi expressa perplexidade diante dessa recusa, considerando que todos os interesses estratégicos americanos na região estão se desfazendo rapidamente. A lógica convencional sugeriria que Washington deveria abraçar qualquer iniciativa que promovesse estabilidade, especialmente quando proveniente de seu principal adversário regional.
A explicação para essa aparente irracionalidade pode residir no excepcionalismo americano persistente. O establishment político dos Estados Unidos continua operando sob premissas hegemônicas ultrapassadas, incapaz de reconhecer a emergência de um mundo multipolar. Essa cegueira estratégica impede adaptações necessárias às novas realidades geopolíticas.
O Colapso Europeu e a Irrelevância Crescente
As potências europeias emergem como as maiores perdedoras na configuração geopolítica atual. Sacrificando-se pelos interesses americanos durante anos, tanto na administração Biden quanto na de Trump, países como Alemanha, França e Reino Unido viram suas economias deteriorarem-se e sua influência global diminuir substancialmente.
Macron sugeriu possibilidade de enviar ajuda militar à Arábia Saudita, tentando equilibrar duas mensagens contraditórias: tranquilizar os iranianos afirmando que a Europa não participa diretamente da guerra, enquanto simultaneamente demonstra valor estratégico aos Estados Unidos como multiplicador de força. Essa tentativa de sentar-se em duas cadeiras revela a posição ambígua e enfraquecida do continente europeu.
Marandi argumenta que a Europa não possui capacidade militar significativa para influenciar positivamente o conflito com o Irã. Se tivesse tal capacidade, teria feito mais pela Ucrânia. A Alemanha entra em colapso econômico, resultados eleitorais locais mostram rejeição catastrófica ao status quo, e a União Europeia enfrenta desintegração estrutural. O centro político europeu não consegue mais se sustentar.
Países como França e Reino Unido tornaram-se atores secundários no sistema internacional, superados em importância por membros do BRICS. A Europa sacrificou oportunidades históricas de diversificação energética e diplomática, recusando acordos com Irã e antagonizando Rússia desnecessariamente. Agora enfrenta consequências severas dessa miopia estratégica.
A Transformação da Sociedade Iraniana
Internamente, o Irã experimenta transformações sociais profundas. A visão de mundo dos iranianos mudou radicalmente nos últimos sete a oito meses de conflito. Estudantes universitários, anteriormente aspirando emigrar para o Ocidente, agora expressam desejo de permanecer em seu país. Elites liberais com orientação ocidental, embora ainda influentes em termos de riqueza, viram sua influência diminuír significativamente.
O presidente Pezeshkian, inicialmente crítico da China e da Rússia durante sua campanha, viu sua perspectiva transformar-se completamente após assumir o poder e confrontar a realidade das ações americanas. O assassinato de Ismail Haniyeh em Teerã no dia de sua posse marcou o início de uma deterioração acelerada das relações com o Ocidente.
Marandi observa que os Estados Unidos conseguiram, paradoxalmente, criar hostilidade contra si mesmos enquanto aproximavam países historicamente diversos como Irã, Rússia e China. Essa convergência estratégica representa uma conquista geopolítica significativa, embora não intencional por parte de Washington.
Reflexões Finais sobre Hegemonia em Declínio
Citando Zbigniew Brzezinski, Marandi recorda que a preservação da hegemonia americana exigia manter vassalos dependentes e adversários divididos. Quando essa hegemonia desaparece, como parece estar ocorrendo, estratégias devem ser repensadas. Resistir à formação de um mundo multipolar resulta apenas na criação de um sistema organizado em oposição aos Estados Unidos.
O excepcionalismo americano impede interação genuína com a realidade em evolução. Enquanto tentarem manter controle absoluto simultaneamente reconhecendo mudanças estruturais, essa contradição permanecerá profundamente destrutiva. Diferentemente de impérios em declínio do passado, o cenário atual envolve armas nucleares, inteligência artificial e população global muito maior, tornando os riscos exponencialmente mais perigosos.
A elite política americana demonstra incapacidade de reformar instituições para servir interesses nacionais, priorizando invece sua própria preservação. Na base da sociedade, contudo, cresce a percepção de que guerras distantes não atendem aos interesses americanos reais. Essa desconexão entre elite e população constitui característica definidora de estados decadentes.
O caminho adiante será extremamente difícil. A arrogância do excepcionalismo cega para realidades concretas, impedindo ajustes necessários. Enquanto líderes como Netanyahu e Trump utilizam plataformas internacionais para falar com suas bases eleitorais, projetando imagens de força ilimitada, ignoram danos catastróficos infligidos a seus próprios países e ao mundo. A história julgará severamente essas escolhas, mas o custo humano e econômico será pago por bilhões de pessoas inocentes.

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